“A Pedra e o Silêncio” Por Daniel António Marcos

A tarde de terça-feira em Lichinga arrastava-se, pesada e morna, como é seu feitio. O sol, já inclinado, sem brilho com nuvens carregadas, o corpo dos funcionários públicos que, finalmente libertos dos serviços, se espalhavam pelas ruas em direção à casa. O Mercado Central fervilhava naquele som abafado produzido por muitas vozes, conversando ao mesmo tempo típico do fim do expediente: vozes que se cruzavam, passo apressado de quem quer chegar, o cheiro de roupa e sapatos estendidos e de “bagias” e bolinhos fritos, daqueles vendedores que disputam os passeios.

Foi nesse caudal de gente que a loucura se fez notar.

Ouviu-se primeiro o som seco de uma pedra contra o metal. Depois, outra. E mais outra. 𝑪𝒍𝒂𝒏𝒈! 𝑪𝒍𝒂𝒏𝒈! O semáforo, ali naquela artéria principal, balançava como um enforcado sob a fúria de um homem. Era um vulto desalinhado, de olhar perdido num horizonte que só ele via, munido de pedras que arrancava do chão molhado daquele alcatrão sofrido. A cada arremesso, o braço descrevia um arco violento, e a pedra ia ao encontro da luz vermelha que, teimosa, continuava a brilhar, alheia ao ataque.

Os peões desviavam-se, encolhiam os ombros, faziam uma curva larga. Os automobilistas, surpreendidos, buzinavam, não em coro, mas em sobressaltos, receosos que o vidro do pára-brisas ou da janela se estilhaçasse a qualquer momento.

— Isto é coisa de loucura ou é faz de conta? — perguntou em voz alta um vendedor de sapatos, sentado no seu banco de madeira, os olhos fixos na cena. A sua mercadoria, alinhada em sacos plásticos, parecia tão vulnerável quanto o semáforo.

Um outro vendedor, mais velho, que assistia tudo de braços cruzados, cuspiu para o lado e reflectiu, como quem conversa sozinho:
— Sabes o que era bom? Uma linha verde. Pintada no chão, nas paredes, nos estabelecimentos. Chegavas ali, naquele muro, e ligava-se diretamente à polícia ou à salvação pública. Mas com a nossa mania… já viste? Temos a linha da piquete da EDM. Ligas para lá, atende Nampula. “Espera, que vou dar a ordem para Lichinga…” — imitou ele uma voz de central telefónica. — E o maluco, entretanto, já tinha apedrejado meio quarteirão.

O cenário era de puro caos controlado. O homem-louco não parecia exausto. Havia um ritmo na sua insanidade. Agachava-se, escolhia a pedra com uma estranha perícia, erguia-se e lançava. Era um guerreiro de uma batalha que só ele compreendia, combatendo um inimigo de três olhos coloridos que lhe roubava a atenção ou talvez a alma.

Foi então que o olhar do vendedor de sapatos se desviou. Cinquenta metros adiante, perto de uma pastelaria, dois polícias. Um homem e uma mulher. Ela, com uma espingarda com uma cinta de autoridade. Ele, com um chamboco na mão, a batuta da lei. Estavam parados, imóveis, como duas estátuas recentemente colocadas naquele passeio. Olhavam para a frente, para o movimento dos carros, para as pessoas que entravam e saíam das lojas. Será que não ouviam as pedradas? Será que não viam o ajuntamento medroso?

— Eh pá! E aqueles ali? — exclamou o vendedor para o colega do lado. — Estão a ver o mesmo que nós?

Os dois polícias não se mexiam. Talvez estivessem de serviço, sim, mas a sua missão fosse outra. Talvez vigiassem a pastelaria, ou o cruzamento seguinte. O facto é que o louco e a autoridade estavam separados por meros cinquenta metros de alcatrão e por um abismo de inacção.

— Estariam eles em condições de enfrentar um maluco? — questionou-se o vendedor de sapatos, agora mais pensativo do que assustado. — Uma espingarda contra um homem com pedras? Um chamboco contra um braço que atira sem medir consequências? A mulher atirava? O homem dava-lhe com o pau? E depois?

O semáforo, entretanto, já apresentava marcas. Lascas de tinta verde e amarela no chão, a haste ligeiramente amolgada. O louco, como se cumprisse um ritual, atirou a última pedra, ficou a olhar para o seu trabalho, e depois, num rompante, virou as costas e seguiu rua abaixo, murmurando palavras que ninguém entendeu, engolido pelo labirinto de barracas e gente.

O silêncio voltou ao cruzamento. Os carros retomaram a marcha, obedecendo agora ao semáforo que, milagrosamente, ainda funcionava, piscando o seu olho vermelho sem danos.

A questão ficou no ar, pairando sobre Lichinga como a lama do fim da tarde: O que fazemos com os que a cidade rejeita? Que plano temos para aqueles cujas mentes são um campo de batalha e as ruas, o palco?

Olhamos para os polícias, que ali continuavam, estáticos. Depois, para o local onde o louco desapareceu. E a pergunta do vendedor ecoa ainda agora, enquanto as sombras se alongam: estarão as nossas cidades, de facto, preparadas para monitorar a frequência da loucura? Ou limitamo-nos a esperar que a próxima pedra não acerte em nenhum de nós, enquanto aguardamos que Nampula atenda a chamada?

𝐃𝐚𝐧𝐢𝐞𝐥 𝐀𝐧𝐭ô𝐧𝐢𝐨 𝐌𝐚𝐫𝐜𝐨𝐬