A Tarde em Que o Chiuaula Foi Estádio

Era domingo, 15 de Fevereiro, e Lichinga vestia-se de futebol. Não de finos mantos ou relvados ingleses, mas daquela paixão crua que brota do chão batido, da terra vermelha que a chuva da madrugada amoleceu e transformou num escorrega natural. O palco era o pacato campo do Ferroviário – ou simplesmente “no Ferroviário”, como a voz do povo batizou aquele retângulo de sonhos ao lado da estação de comboio.

Chegava-se ali e o que se via, primeiro, era o aparato. Quase policial, diziam. Mas sem os recursos técnicos e operacionais que a segurança pública exige em dias grandes. Eram homens fardados, sim, empunhando armas e chambocos, numa ostentação de força que mais parecia um ensaio para o caos do que a garantia da ordem. No fundo, era apenas mais um domingo de final no bairro.

Três tendas haviam sido montadas. Uma, vermelha, exibia com orgulho o logótipo da Rádio Moçambique. As outras, verde e azul, ficaram no anonimato das cores, guardiãs de quem nelas se abrigou do sol que teimava em raiar entre nuvens carregadas. Ao lado delas, num bambu fino e resignado, uma bandeira do Barcelona tremulava como se quisesse afirmar: aqui também se joga à bola com alma de Camp Nou.

E não é que a equipa que vestia de blaugrana entrou em campo? Pisaram a terra pegajosa, onde os farelos de arroz marcavam as linhas tortas da imaginação. Do outro lado, o Sporting de Portugal – ou a sua versão de Lichinga – trajava o verde, branco e preto, tricolor como manda a tradição leonina. As balizas, desequilibradas, pendiam para um lado, favorecendo golos com um jeito que só a precariedade sabe oferecer.

O relógio marcava 16 horas quando a bola rolou. E a rua Chiuaula rugiu. Não o rugido de leão, mas o ronco rouco de motorizadas e viaturas que teimavam em furar o engarrafamento. A via estreita virou parque de estacionamento improvisado: camionetas e camiões de dez toneladas serviam de bancadas para os mais ousados. A frágil abacateira, única árvore à beira do campo, vergava sob o peso de jovens empoleirados. Nos telhados das casas, mais gente. Tudo para não perder um lance.

O aparato policial, entretanto, retirou-se. Perceberam que ali a única ordem possível era a da paixão. E ficaram, também eles, como espectadores.

O relato da Rádio Moçambique ecoava por entre a multidão, e aquela massa humana vibrava, alheia ao lixo espalhado, ao terreno desnivelado, à imundice que qualquer outro chamaria de insuportável. Mas ninguém reparava. Os olhos estavam colados à equipa que mais se aproximava do golo. Porque no desporto em Niassa é assim: os campos são pacatos, os talentos emergem da precariedade, e dali saltam, não raro, para os holofotes do Moçambola.

Acreditei, naquela tarde, que nos habituamos a fazer coisas grandes com mãos atadas. Quando ouvi sussurros de que ali estavam olheiros à caça de talentos para contratos nas grandes equipas nacionais, percebi a dimensão do que acontecia naquele pedaço de terra. Não era um estádio. Não era um campo minimamente arranjado. Era um terreno que insiste em ser palco por pura teimosia de quem gosta de jogar. Ali se joga sobre lixo. Ali se escorrega na lama. Ali se serve de caminho para quem só quer passar. E ainda assim, dali saem esperanças.

Por isso, fica a pergunta que o apito final não calou: porquê tanta precariedade nos campos de Lichinga? Porque é que as políticas públicas para o lazer e o desporto não enxergam o potencial de cada zona? Se Niassa gosta de futebol, se respira futebol, porque não há luz, nem infraestrutura, nem condições dignas para o Chiuaula e tantos outros campos caseiros?

Anima fazer coisas com pureza e firmeza. Mas enquanto formos precários no que nos traz valor, continuaremos a depender da teimosia e da lama para ver nascer um craque. E a lama, essa, não sustenta carreiras. Sustenta, apenas, a fé de quem ainda acredita que, um dia, o futebol em Lichinga terá o campo que merece.