MARIA ATÁLIA: A MULHER DOS MÚLTIPLOS GÉNEROS TEATRAIS

Uma autoridade, com voz e perfil para falar da arte de encenação em Moçambique. Maria Atália Adamugy, é uma actriz e encenadora de gabarito internacional, cuja paixão pelo Teatro transcende os palcos. Desde os 13 anos que respira a arte como a carne necessita do alimento e na formação académica também fala o idioma do Teatro.

Dedica a vida à arte, o seu percurso, revela o encanto na entrega do melhor de si para a plateia e cada abraço representa mais do que contacto ou calor humano, mas um momento de exaltação da vida. Guarda o cordão umbilical em Gaza, mas em Maputo, reside o destino de todo regresso após qualquer viagem pelo mundo.

A Docente nas cadeiras de Encenação e Teatro Contemporâneo na Universidade Eduardo Mondlane, presta serventia a uma arte que embora difícil, considera possível viver-se dela em Moçambique, como um borracheiro ou alfaiate vivem dos seus ofícios. Bastante desafiador, mas é um privilégio ser actriz ou mesmo actor no país, um lugar onde é preciso fazer tudo valer a pena e assumir os desafios para levar a arte às pessoas e estar antenada para projectos e temáticas de interesse nas comunidades ou em feiras.

Para Maria Atália, o Teatro requere um trabalho de 24/24h, pesquisa, entrega e fazer se da plateia para assistir os outros e com eles aprender. E é nesse espírito que soluça para apontar o momento mais marcante de sua carreira, onde recorda com prazer e saudade a primeira aparição em um filme, por estar mais habituada ao teatro, a adaptação às câmeras não foi fácil, entretanto com tempo veio o aprendizado e hoje tanto na TV ou cinema, sente- se um cruzeiro velejando pelo alto mar.  

Na sua trajectória fala de desafios, mas também de experiências marcantes. A convivência, e partilha de métodos de criação e palcos com actores comumente vistos em TV, foi inspiradora.  A presença em festivais no Brasil ou em lugares como Alemanha, onde despertou interesse de actores locais, foi fundamental para o seu crescimento. Mas levar o teatro às comunidades, onde a plateia ocupa todo tipo de assento e faz das árvores, tribunas ou ver pavilhões abarrotados nas escolas, até mesmo sentir se imersa no meio de uma nuvem de gente após actuação, considera um sentimento nostálgico.

A Co-fundadora da Companhia de Artes Mahamba, fala da valorização da mulher no mundo das artes em Moçambique, e adverte: “é preciso conquistar o lugar com conhecimento, fazer valer as oportunidades. Ninguém devia ocupar uma posição de destaque pelo género, isso funciona para ambos sexos. O mérito deve ser a base. Sinto-me valorizada no que faço e no lugar onde pertenço, não apenas por ser mulher, mas por ser profissional.”

Para a actriz dos filmes “O Lobolo” e “A República dos Meninos” ou da mediática telenovela moçambicana “Maida”, tem mulher bastante e supertalentosa no teatro moçambicano, embora falte a continuidade porque ao longo do percurso surgem outras ambições ou profissões, o que leva muitos a relegar o teatro a um hobby.

Para a académica, Maria Atália Adamugy, cabe ao artista conceber e conhecer o seu nicho para despertar interesse do público em sua obra e não a academia, que lhe cabe formação e ferramentas técnicas. Ainda, aponta busca pelo o dinheiro e o imediatismo, como alguns dos maiores problemas que limitam o impacto do teatro em Moçambique.

O teatro não vai te dar riqueza material, mas vai te enriquecer espiritualmente. Em Moçambique, o teatro não tem produtores ou gestores. Os agentes em Moçambique só estão preparados para gerir carreiras de músicos e isso obriga os fazedores de teatro a serem artistas e gestores ou empresários, simultaneamente.”

Para a actriz, encenadora e docente de Teatro a melhor forma de celebrar 27 de Março, Dia Internacional do Teatro é fazendo Teatro. O teatro celebra se fazendo. É preciso sentir teatro. Pensar novas temáticas e despertar interesse público para assistir o teatro, para garantir sustentabilidade dos grupos.

Sobre a sobrevivência dos grupos fora da capital, entende ser um problema geral, pois mesmo em Maputo, são poucos que vivem o dia a dia dos palcos e partilha que já estive em Niassa, onde formou um grupo de teatro em Nipepe. E aponta como solução o financiamento da arte, porque as pessoas abandonam o teatro em busca nas outras artes de formas de sobrevivência.

Texto: Leonel A. Mucavele