Mendigo: um poema feito para dar voz às minorias sem voz que vagueiam pelos lixões e contentores da cidade

O texto escrito pelo poeta Saloy, um jovem de Niassa, não é um simples texto, é um grito que vêm das ruas, onde o abandono, a fome e a miséria são uma realidade que não se esconde. Não é apenas um poema bonito, como de forma leviana se pode dizer, é uma obra que exterioriza o que muita gente vivencia e adoptou como um modo de vida normal na realidade moçambicana, mas longe de ser normal, é uma realidade que não deve ser ignorada, portanto, não normal. Dai o poema não ser apenas bonito, mas necessário.                                           

O poema está estruturado em três momentos temporais distintos que interconectados dão sentido a sua mensagem: o presente, o passado e o futuro distante da realidade.

Neste poema, Saloy exterioriza o sentimento que lhe queima a alma perante as desigualdades sociais, a pobreza e a miséria que levam pessoas a indigência e reivindica o facto de não ter nascido num ambiente com aquilo que se pode chamar de “mínimo necessário”, que foi defendido por John Rawls. Como se segue nos excertos a seguir:

“Eu também queria ser tratado como príncipe;

Eu queria também ser como esse filho de riquinho que vocês levam à escola;

Mas encontro apenas arroz estragado dentro duma sacola”

Num outro momento, Saloy revela seu desamor pelo pai, ao sentir que mesmo estando no ventre da sua mãe, já não era querido por este, e só não sofreu aborto devido ao amor da sua mãe, que mesmo diante da vida miserável que tinha decidiu não abortar a gravidez, como se segue neste extracto:

“Eu no ventre ainda ouvia;

Tira esse lixo, não é meu;

Lembro que era meu pai que não me queria, mesmo vindo de lá, ele me queria de volta no céu;

…Mais a minha mãe deprimida queria apenas uma criança para viver”

Nesta estrofe, Saloy desempenha duplo papel, ao ser poeta e ao mesmo tempo activista social, quando por um lado, chama atenção ao Estado para a formulação de políticas públicas que visam reduzir a pobreza, as desigualdades sociais, e por conseguinte, da mendicidade infantil, mas, por outro lado, reivindica que a pobreza não dá o direito a quem quer que seja de ser juiz da vida, para decidir se uma criança vive ou morre, pois a vida somente a Deus pertence.

Este poema foi nitidamente bem estruturado e explorado, organizado em versos e estrofes. No texto, Saloy trás uma peculiaridade dos poemas contemporâneos, pois na sua mancha gráfica utilizou versos livres, também chamados de “versos brancos ou soltos” são versos fora do estilo tradicional, sem rimas, um estilo característico dos escritores da actualidade, como se segue:

“Eu não escolhi ser mendigo;

Vocês fizeram-me viver no lixo.”

Por outro lado, o texto explorou versos com rimas tradicionais (forma muito explorada por escritores como Mário Janguia no seu livro intitulado “O Sussurro dos Ventos” e pelo Padre Manuel Fereira na sua obra “Serenidade”, tal como como se pode ver:

Ainda que não tenham nada, mas me dê algo para comer;

Não tenho onde viver;

Não tenho o que comer;

Pela fome e no frio me vais ver gemer”

Pelas suas lamentações, Saloy volta a disparar e a insurgir-se contra o Estado, quando sente que pouca atenção se dá aos mendigos, indigentes e aos sem teto, principalmente crianças, conforme diz neste verso: “Nem direitos e nem deveres que te possam proteger”.

Saloy explora de forma emotiva e sentimentalista várias figuras de estilo como é de praxe em textos literários, tais figuras são: Metáfora: “Eu sou filho do contentor e neto do resto” … “vocês fizeram-me viver no lixo”; Anáfora: “Não tenho onde viver” …“Não tenho o que comer”;Antítese: “Eu queria também ser como esse filho de riquinho que vocês” …Mas encontro apenas arroz estragado dentro duma sacola,” só para citar algumas. O poema termina o seu desabafo com o mendigo a clamar por ajuda e oferecendo-se a quem tenha comida para o alimentar como seu filho adoptivo como forma de garantir que tenha um futuro, mesmo que incerto, conforme de pode depreender: “tio me leve até

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