“NÃO PODEMOS VIVER OBCECADOS PELOS NÚMEROS SE QUISERMOS APOSTAR NO ENSINO DE QUALIDADE ” Tio Barba

ENTREVISTA

“NÃO PODEMOS VIVER OBCECADOS PELOS NÚMEROS SE QUISERMOS APOSTAR NO ENSINO DE QUALIDADE ” Tio Barba

Um ser humano; focado, sonhador e perspicaz. São estes os adjectivos que se aproximam do professor, educador, empreendedor e visionário, José Valério Samuel, um homem que transformou sonhos sobre entulhos de pedras. Pioneiro no empreendedorismo educacional, com ousadia, assumiu risco numa área até então de pouco interesse em Lichinga, o ensino privado, em 2012.

Antes da glória, o docente universitário experimentou todo tipo de preconceito da classe, e ainda assim, manteve o foco e descalçou todos estigmas, continuou como um actor da vida, andando em contramão, mas com um horizonte. Nem mesmo a escassez fê-lo desistir. Nenhuma intempérie, de natureza alguma, moveu-lhe o desejo de ver paredes erguidas, a partir das quais, crianças cujos educadores não tiveram mesmas oportunidades, vestirem trajes de uma educação voltada no ensino de competências. Quando tudo apontava para um compasso, a determinação fez- se o motivo, e o total de 7 alunos com que CADA- Paulo Samuel arrancou em 2012, serviu de um combustível para o motor que mais de 10 anos depois ainda ronca.

“Nunca pensamos em desistir. Com foco e determinação, nenhum projecto bem estruturado fracassa.”

Revista Upile: Como surgiu a ideia de criar a escola CADA-Paulo Samuel, tendo em conta que Lichinga é um terreno aparentemente difícil para novas iniciativas?

José Valério Samuel: A ideia surgiu da empatia que sempre tive pelas crianças, por ter testemunhado realidades de menores em situação de adversidade extrema, o que despertou em mim, a vontade de ajudar. Conversei com minha esposa, e ela abraçou a iniciativa. Mas vimos que o apoio não podia ser por meio de um orfanato, por falta de recursos para uma iniciativa meramente social, por isso, a aposta recaiu para uma escola. Na altura não existia nenhuma escola privada na cidade. Era um desafio constituir uma alternativa ao ensino público. Tanto que, no início parecia uma aventura sem precedentes. O preconceito de ser um projecto inédito, mas também de jovem, sem experiência nenhuma.

Revista Upile: Com essas adversidades que apontou, em algum momento considerou desistir?

José Valério Samuel: Nunca pensamos em desistir apesar das dificuldades. O sonho de ajudar as crianças falou mais alto que todos desafios. Nem mesmo quando as paredes de uma das salas caíram um mês antes do arranque das aulas. Ou o total de 7 alunos que tivemos em 2012, em nenhum momento passou pela minha cabeça desistir. Passamos enormes necessidades buscando por este sonho, nada podia ser mais forte que a vontade de vencer. Esse conselho fica para todos, ainda que difícil, nenhum projecto bem estruturado fracassa com foco e determinação na aplicação.

Revista Upile: Quais foram os principais desafios enfrentados e as maiores conquistas nos primeiros anos de funcionamento do CADA-PS?

José Valério Samuel: O Maior desafio foi incutir na cabeça das pessoas a ideia de uma escola privada e construir um concento que ainda não existia para maioria dessas pessoas, por ser a primeira escola privada na cidade. A aderência no primeiro ano não foi fácil; como disse, começamos com 7 alunos e avançamos para 79 alunos no ano seguinte. Havia muita dúvida sobre o projecto e a ideia da escola privada, mas a luta e perseverança contou. O projecto começou em 2010 com a burocracia e 2012 arrancamos com o projecto de leccionação. Conquistar, permanecer e hoje somos uma referência.

Revista Upile: De que forma a sua formação em Psicologia influencia o seu estilo de liderança e a gestão da escola?

José Valério Samuel: No início éramos apenas duas pessoas: eu e minha esposa, que actualmente exerce as funções de directora. As vezes confundia-se muito o meu trabalho na instituição onde presto serviços e o projecto, que se acreditava que era um centro de psicopedagogia, mas a interajuda com os pais e/ou encarregados de educação foi fundamental, tanto que até os casos de crianças com necessidades educativas especiais tiveram acolhimento. Fora isso, ter a formação em psicopedagogia ajudou muito porque facilitou o relacionamento com os colaboradores, a comunidade escolar no geral, o tratamento com as crianças, a proximidade e a redução da burocracia; como lidar e compreender os comportamentos humanos, gerências das expectativas, são matérias que levo do meu campo de formação para a prática diária.

“Em Lichinga, somos a única escola particular, de preto, jovem e moçambicano!”

Revista Upile: Na sua opinião, o que diferencia esta escola de outras existentes na província de Niassa?

José Valério Samuel: O que diferencia CADA-PS das outras escolas é o rigor de trabalho, o profissionalismo e os números de aderência nos últimos anos, provam essa tendência, sobretudo pelos resultados nos primeiros anos, que geraram expectativas e procura dos serviços, saímos de 07 para 79 no segundo e hoje temos mais de 800 alunos. Em Lichinga, somos a única escola particular, de preto, jovem e moçambicano, as outras são de congregações religiosas, com financiamentos e com mais abertura para aceitação social. A nossa marca de registo é a aposta na qualidade.

Revista Upile: Durante esse percurso, que lições tirou das dificuldades vividas no sector da educação?

José Valério Samuel: O ensino particular procura criar a inclusão que o ensino público não permite ao aluno sem domínio da leitura e escrita, por vários factores, entre os quais, rácio professor- aluno, que não facilita acompanhamento de todos alunos da turma; as progressões no ensino público que não estão acompanhadas da qualidade; e nós nos propusemos no desenvolvimento das competências básicas, como estratégias para contrariar a problemática das escolas públicas, por isso, procuramos contornar as dificuldades que o ensino público tem.

Revista Upile: Como é a relação da escola com os pais e encarregados de educação? Que mudanças concretas a escola trouxe para a comunidade local?

José Valério Samuel: Muito boa. Com tempo vai mudando um pouco por conta de número de alunos, mas há critério de aproximação da escola com a comunidade. A abertura para acomodar as pretensões dos utentes é fundamental, e por ser uma escola privada ainda há alguns encarregados com o entendimento de que o pagamento das mensalidades e outras responsabilidades é único papel do pai, cabendo a escola fazer tudo o resto. A consciencialização do ensino particular, e por termos sido os primeiros, as novas escolas particulares não passaram o mesmo que nós. Fizemos a comunidade acreditar no ensino privado, por isso, a relação com os encarregados ainda que não escolarizados facilita a aproximação com os diversos actores.

“Tio Barba virou uma marca na nossa comunidade escolar, sobretudo nos alunos.”

Revista Upile: Que histórias de alunos ou professores mais o marcaram ao longo destes anos?

José Valério Samuel: A fixação do nome tio barba nos alunos. Tio barba virou uma marca, o nome me aproxima mais dos alunos e cria uma intimidade que facilita a nossa interacção. Nos professores o que mais marcou foi a reunião de abertura num dos anos que pela postura e idade dos professores questionei a capacidade, entretanto desafiados, com tempo provaram o contrário. Tanto que alguns deles foram confiados a gestão do novo projecto da escola, para comprovar que o tamanho ou a condição social não definem a competência do homem.

Revista Upile: A escola dispõe de algum programa que incentiva gosto dos alunos pelas artes ou cultura no geral?

José Valério Samuel: Sim, temos um canto para prática de dança e karaté, como actividades extra currilares, sobretudo para alunos com idades mais avançadas, que apresentam uma maturidade física avantajada, geralmente de 4ª a 6ª classe. Temos um projecto de abertura de uma oficina de leitura ainda por aprimorar, mas também pensamos em estabelecer uma parceria com uma poetisa para ajudar na declamação, o que faria da escola um grande diferencial assim como com o Centro Cultural Bela Vista que dispõe de uma biblioteca para estabelecer essa ligação para outras actividades.

Revista Upile: Qual é a política da escola em relação à valorização da cultura local ou do aluno?

José Valério Samuel: Em Niassa a cultura é muito forte e com uma diferenciação cultural muito forte, como escola devemos encontrar um padrão cultural para valorizar todas culturas. Cria se espaço para os professores incutir nos alunos boas práticas, respeitando as diferenças entre eles. A escola procura estabelecer um equilíbrio para o respeito mútuo entre os alunos, tanto que existe um espaço para os professores fazerem uma abordagem cultural baseada numa educação cívica do aluno como futuro cidadão.

“Pretendemos imprimir uma nova dinâmica no ensino secundário. A aposta no saber fazer será nosso maior diferencial, com o domínio da electricidade e montagem de computador entre as iniciativas do Liceu José Valério.”

Revista Upile: O que o motiva a dar este novo passo com o Liceu José Valério?

José Valério Samuel: Apaixão acima de tudo, vontade de crescer, a pressão social e porque temos a convicção de que fazemos bem o nosso trabalho no ensino primário, queremos responder as solicitações dos pais e/ou encarregados de educação que desde 2019 nos interpelam sobre abertura do ensino secundário, e sentimos que chegou o momento de dar este passo. Ainda assim, não estamos acomodados com os êxitos do primário.

Revista Upile: Que aprendizagem desta primeira experiência pretende levar para o novo projecto?

José Valério Samuel: Qualidade de trabalho; a gestão pedagógica é um dos elementos a aprimorar, mas nos desafiamos a elevar mais os níveis, e pretendemos apostar numa gestão pedagogia mais inovadora, o que obriga um exercício de leitura profunda e permanente. A pedagogia de projecto será nosso cartão-de-visita, para abordar a ideia teórica dos conceitos. Por ser um nível em que os outros já se encontram, precisamos inovar mais para atrair interesse dos pais e/ou encarregados de educação, por isso aaposta no saber fazer será nosso maior diferencial, com o domínio da electricidade e montagem de computador entre as iniciativas do Liceu José Valério.

Revista Upile: A sua história inspira muitos jovens. A sua trajectória é frequentemente citada como um exemplo de quem soube sonhar, acreditar e realizar. O que significa, para si, “sonhar” no contexto da educação?

José Valério Samuel: A educação é base do desenvolvimento de um país, e enquanto não tivermos uma educação de qualidade, esse é o primeiro sinal de que algo não vai bem. A contribuição numa educação de qualidade é o nosso diferencial. Ajudamos famílias e sentimos que estamos a contribuir ainda que pouco, mas nos encoraja nem que seja um contributo de duas em dez crianças que sabem escrever por meio do CADA-PS. Quando andamos pelo país e nos interpelam pelos corredores por antigos estudantes que hoje frequentam ensino superior nos deixa mais motivados.

Revista Upile: Que conselho deixaria aos jovens professores e gestores escolares que desejam transformar a educação moçambicana?

José Valério Samuel: O gosto pela profissão, porque é um desafio enorme fazer um trabalho vocacionado à educação. Nos dias actuais a profissão de professor passou a ser desacreditada. Mas ainda assim, cabe ao professor desenvolver gosto e paixão pela profissão. Hoje a educação já não tem o mesmo valor das décadas 90, por isso os alunos actuais não sonham mais em ser professor, a profissão perdeu prestígio.

“Não podemos viver obcecados pelos números se quisermos apostar na qualidade”

Revista Upile: Se pudesse mudar um aspecto do sistema educativo actual, qual seria e por quê?

José Valério Samuel: A substituição da quantificação pela qualificação. Como disse Ferrão “Perdemo-nos perseguindo grandes números”.

Essa frase nos obriga a reflectir no incremento de qualidade sem nos preocupar com a quantidade, pois ela deve andar de forma associada à melhoria de qualidade. A quantidade nos confere mais gente formada, mas sem qualidade. Não podemos viver obcecados pelos números se quisermos apostar na qualidade. É preciso equilibrar a balança, onde independentemente do tipo, seja privado ou público, houvesse equilíbrio, isso ia conferir inclusão. Se pudesse mudar algo, seria acrescentar qualidade onde abunda quantidade.

“O livro faz nos viajar sentados.”

ParaJosé Valério Samuel, uma política nacional de educação estrutural, tornaria o ensino mais robusto, entretanto há mudanças de políticas em cada governo sem avaliação prévia dos resultados das políticas anteriores, afectando significativamente a qualidade do ensino. As políticas são mudadas sem ter em conta o tempo de adaptação, isto devido a falta de compromisso com a educação.

Para os jovens, o homem que ousou sonhar e na companhia sempre da esposa, ergueu paredes feito um louco e transportou alunos de camião como se de frangos se tratassem; inalou poeira espantando seus correligionários da classe docente, aconselhou mais crença e persistência na busca pelos objectivos da vida, porque nada é fácil. A autoconfiança e firmeza, foram fundamentais para que hoje os aniversários, o Liceu José Valério e outras conquistas, se tornassem uma realidade.

A terminar, Tio Barba durante a conversa com a nossa equipa, apelou o gosto pela leitura, como meio para fazer face aos problemas de educação, porque a leitura transcende o leitor aos outros mundos. A aposta numa leitura física estimula mais a cognição, o que seria um grande avanço para educação, por um lado e o gosto pelas artes, por outro.

Entrevista: Artimisa J. Tivane Mucavele

Imagens: Fernão Biriate