O Refresco Milagroso
Autor: Inocêncio João Tijó
Na esquina mais movimentada de qualquer cidade moçambicana, entre a poeira teimosa e o pregão dos vendedores ambulantes, há sempre uma banca misteriosa que ninguém diz visitar, mas onde todos, um dia, acabam por parar. A banca é pequena, coberta por uma lona já desbotada, mas guarda o produto mais procurado do país.
O refresco da corrupção. O vendedor não tem rosto definido. Uns dizem que é funcionário público, outros juram que é empresário, alguns afirmam que é político. O certo é que muda de cara conforme o freguês. O seu sorriso, porém, é sempre o mesmo: largo, brilhante e perigosamente convincente.
No rótulo do refresco lê-se:
“Resolve tudo. Adoça a vida. Acelera processos.”
Em letras pequenas:
“Efeitos secundários: atraso no desenvolvimento, estradas esburacadas, escolas sem carteiras, hospitais vazios, sonhos adiados.” Mas ninguém lê a letra pequena em Moçambique. O que interessa é que o refresco funciona. Pelo menos durante algum tempo.
O primeiro gole dá a sensação de vitória. O segundo desperta o atalho fácil. O terceiro instala a ideia de que a regra existe apenas para enganar os ingénuos. De gole em gole, nasce no cidadão comum um pequeno tirano que acredita que tudo tem preço e que o país existe apenas para a sua conveniência.
O ar enche-se de frases típicas:
“Não te preocupes, eu trato.”
“Conheço alguém lá dentro.”
“Não leva tempo.”
E o refresco continua a circular como se fosse água mineral num dia de calor em Lichinga.
A verdade, porém, é que Moçambique vai ficando cansado. O asfalto cede, as pontes caem, a juventude desespera. O progresso avança como quem anda com uma pedra no sapato. E a pedra tem nome: Corrupção.
As famílias pagam por serviços que deviam ser gratuitos. Os jovens estudam, mas o emprego fica sempre para o “sobrinho de alguém”. Os hospitais pedem paciência a quem já perdeu tudo, menos a esperança. E a esperança, essa, começa a desconfiar de si própria.
Um dia, porém, algo inesperado acontece. Na mesma esquina onde a banca funciona há décadas, aparecem jovens que recusam o refresco. Trazem consigo um novo sabor chamado consciência. Não tem açúcar, não promete milagres, mas tem um ingrediente raro: a verdade.
Os mais velhos aproximam-se, desconfiados e perguntam:
“Para que serve isso?”
Os jovens respondem:
“Serve para construir um país onde ninguém precise de refresco mágico para viver com dignidade.”
A banca do vendedor treme. A clientela diminui. O cheiro da corrupção já não seduz como antes. Sente-se no ar uma vontade tímida de mudança. Ainda é frágil, mas existe. E o vendedor percebe, pela primeira vez, que o seu império pode ruir não por falta de refresco, mas por excesso de consciência.
O país continua a lutar, como sempre fez. Mas agora sabe que há um inimigo silencioso escondido em cada gole fácil. E também sabe que, um dia, quando a última garrafa do refresco for derramada no chão, Moçambique talvez descubra o verdadeiro milagre: crescer sem atalhos.
Porque o futuro não se compra na esquina, constrói-se. E constrói-se com a força de quem decide nunca mais beber o que adoece a nação.













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