Por um observador atento do mundo visível e invisível
Não vinha nos noticiários da manhã, nem constava nas rotas da aviação civil. O avião que caiu no bairro Mutapassa, arredores de Lichinga, não constava em nenhuma torre de controle. A TV Sucesso noticiou, mas ficaram perguntas no ar: de onde vinha? Para onde ia? Quem ia a bordo?
Era uma miniatura, feita daquelas conchas de madeira que usamos para fatiar a xima de milho, utensílio humilde que repousa nas cozinhas do norte. Atravessada por um arame, com três amoletos amarrados em pano preto — um ao centro, dois nas laterais, como motores que equilibravam as asas daquela aeronave improvável. Uma cruz gravada na concha dividia o fundo em quatro partes. Não havia portas, nem janelas, nem danos aparentes. Apenas estava ali, caída, como um pássaro que errou o destino.
Os moradores que acorreram não procuraram sobreviventes. Não havia corpos à vista, não havia sangue, não havia lágrimas pelos ocupantes invisíveis. Havia, sim, um cansaço fundo, daqueles que vêm depois de muitas noites mal dormidas, depois de muitos corpos amanhecidos com dores inexplicáveis. Estavam cansados, diziam. Cansados daquela situação. Pediam socorro, mas a quem? A AMETRAMO, associação dos médicos tradicionais, seria chamada? Onde entram médicos num problema de engenharia? Eis o mistério das coisas ocultas: o que para uns é miniatura, para outros é gigante. O que para uns é madeira e pano, para outros é aeronave lotada de passageiros.
Um homem contou: já foi levado por esses aviões. Despertou numa mata, sem saber como chegara lá. Só podiam ser aqueles voos noturnos, daqueles que acontecem enquanto o corpo dorme mas o espírito viaja.
E enquanto se questionava o socorro, alguém trouxe capim seco, um punhado que cabia nas mãos, e ateou fogo à aeronave. As chamas consumiram a madeira, o arame, os amoletos. O avião mágico virou cinza no chão de Mutapassa.
São vivências que acontecem a cada virada do dia para a noite. Mísseis de trovoada que devastam famílias inteiras, raios que escolhem casas, minas xitegas que paralisam membros sem aviso. Tanta mistura de mundos num só lugar, nas periferias onde o visível e o invisível se encontram como vizinhos de cerca.
Os mais informados contam que lá, nesse outro mundo, há cidades inteiras. Viagens de avião de diversos modelos, comboios com estações, bares, lojas, jardins. Tráfego de viaturas e engarrafamentos como se estivesse em Joanesburgo. Um mundo diferente desta pobreza. Os donos desse mundo, dizem, são ricos lá, mas pobres aqui. Andam entre nós como estranhos, cabisbaixos quando a vítima resiste, sorridentes quando pela manhã perguntam: “Adgimiche udi?” — Como acordou?
E a vítima, sem saber, conta: “Hoje não acordei bem, meu corpo está pesado, como se alguém me tivesse batido.” E eles respondem: “Pole pole baba”, desculpa, desculpa pai, enquanto o coração aplaude: conseguimos, confirmamos.
Assim vai o mundo mágico, onde a vida flui com intensidade na vida atual. Não há jovens, não há crianças, todos optam pelo feitiço, disse o homem em desabafo. Por isso foi bom que o avião foi abatido. E enquanto as chamas consumiam aquela miniatura que cabia na palma da mão, talvez lá longe, noutro lugar, alguém acordou sobressaltado, com o corpo em dor, sem saber que o seu voo noturno tinha caído no capim de Mutapassa.
O mistério não está em saber se o avião era real ou imaginário. O mistério está em como, numa mesma manhã, um objecto pode ser apenas madeira queimada para uns e um desastre aéreo para outros. Está em como cumprimentamos pela rua aqueles que nos visitam enquanto dormimos. Está em como o medo e a crença se entrelaçam no capim que arde.
E enquanto escrevo estas linhas, pergunto-me: quantos aviões invisíveis cruzam os céus das nossas cidades? Quantos passageiros viajam sem bilhete? E quantos de nós, ao acordar com o corpo pesado, simplesmente dizemos que dormimos mal, sem suspeitar que talvez, noutra dimensão, o nosso voo tenha encontrado turbulência?
O avião caiu. Queimaram-no. Mas amanhã, noutro bairro, noutra noite, outra concha de madeira levantará voo. E o ciclo continua, entre o visível e o invisível, entre a xima que alimenta o corpo e os sonhos que alimentam o medo.
Em Mutapassa, resta apenas cinza. E a certeza de que, no mundo mágico, nenhum voo termina verdadeiramente no chão.
𝐃𝐚𝐧𝐢𝐞𝐥 𝐀𝐧𝐭ô𝐧𝐢𝐨 𝐌𝐚𝐫𝐜𝐨𝐬















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