NO DJANDO Por Luís Madaba

 

NO DJANDO

 Por Luís Madaba

COMO SE COME CARAMELO

A comunidade estava chocada, uns diziam – foi enterrar o biff, não queria que mais moscas pousassem sobre ela- outros lamentavam com pesar aquele triste acontecimento, culpavam maus espíritos na comunidade, depois que a notícia se espalhou – até, chamaram o régulo para fazer “sadaka”, missa tradicional.

Se eu pudesse provar isso em tribunal, talvez, não tomaria esta decisão, mudava – por imaginar quanto dinheiro eu teria, fruto de indeminizações por ter sido violada de forma recorrente e inconsciente – à distância, desde a minha adolescência, primeiro com o “namtibwi” – marido da noite, agora, os dois, “namtibwi” e homens reais que se apaixonam por mim, minto, sim, por meu corpo, sem nunca me revelar e ou antes comigo conversar, muito menos conhecê-los, nas noites frias, estes inconfessos, realizam os seus desejos, bebem da água do meu rio como se bebe água por um indivíduo com sede e/ou como se come caramelo por um esfomeado.

– Só na imaginação, imaginando minhas curvas, cintura, ancas, minha trela avantajada…quantos, quantos destes saciam, saciei e ainda vão saciar sua sede no meu rio, nas noites de luar ou noites frias, debaixo dos cobertores ou no banheiro, enquanto eu, mal durmo, atormentado por pesadelos! Quantos destes matei a sua sede, saciei… sem que eu saiba, soubesse, muito menos, conhecesse os seus rostos, na loucura dos seus abomináveis desejos ou amor “Eros”!

Foi o desabafo da Ninha encontrado no meio do seu diário, escrito dias depois que, assolada por uma profunda depressão, mais uma vez, um cão, como ela chamava os homens, seduziu-a, sugou, o néctar crocante dos seus encantos e beleza – dado às costas – um tal de Mbwana, o segundo, depois de Matola, que iludiu a pobre coitada, não era primeira, nem a segunda declaração que Ninha ouvia dos homens, todos os dias, sempre que saísse para a rua, mercado ou escola, o trânsito parava, nenhum homem com “agá” maiúsculo resistia, os mais sensatos ou fiéis, assim que o cruzamento se efectuava, viravam o pescoço para ver a trela que aquele corpão de mulher levava no seu reboque, os olhos dos admiradores, cobiçosos, colavam por breves ou longos segundos e se deliciavam, sem mesmo tocar na fruta, esqueciam momentaneamente a sagrada escritura que nos ensina a não cobiçar, a arrancar e atirar para fora o olho ou órgão que se atreve a nos levar para o inferno.

Mas, as declarações ou melhor as cantadas de Mbwana, que ela era a rosa mais rara do jardim, que a vida dele não faria sentido sem ela, que ela era o ar que ele necessitava para continuar a existir, que ela era o seu propósito de vida, que o amor que ele tinha por ela não se segurava e – muitas vezes, dizia ele – para não morrer louco de desejos e “tesão”, estimulava seus órgãos genitais imaginando-a colorida como o arco iris, agradável e brilhante como as estrelas no ar, que sentia estrondo como o da descarga atmosférica – na hora em que via a sua masculinidade crocante como “yogurt de malambe” transbordar e/ou espalhar-se pelas suas mãos e chão, na irresistível imaginação, ele, dentro do rio dela ou floresta – que ele era o apicultor e – sua rejeição soava como picadas de abelhas mas, não abria mão daquele mel.

Recusou a todos, depois que Matola seu amor da adolescência deixou-a com um filho, sem recursos, viu-se longe de correr para os seus sonhos para cuidar do menino, eis que surge Mbwana com palavras cheio de doçura e ternura, como um príncipe encantado e, não foi recusado, fez das suas ou melhor, fez o que lhe interessava, alcançar seus objectivos, bebeu a água do rio, sujou-a e sumiu, deixando-a com mais um filho. Mais tarde, Ninha ficou sabendo que os homens saciavam sua sede, sem mesmo ela saber ou ser tocada, só no virtual, foi isso que exacerbou o adjectivo “cão” para todos os homens. 

Quando todos ficaram sabendo que Mbwana era o autor moral daquele triste acontecimento, os homens, solteiros e casados da comunidade, admiradores e apaixonados, secretamente e declarados, incluindo os inconfessos “Namtibwis”, quase foi trucidado, para continuar em vida – teve que se mudar para uma comunidade distante, a comunidade soube anos depois que Mbwana havia-se transferido para o interior do distrito de Muembe, a viagem da sua partida aconteceu na calada da noite e contou com ajuda do seu primo, Ntapua. 

– Perdemos a Ninha por conta deste irresponsável.

Diziam os homens, furiosos e continuavam a viver suas fantasias, como se estivessem dentro do rio dela, para conseguir se livrar, exibir ou demonstrar a masculinidade, estando no banquete ou calor de outra mulher. 

Até hoje, as organizações feministas continuam a trabalhar afincadamente para reunir provas condenatórias, não só para o Mbwana mas, para todos os homens que beberam do rio da Ninha, no virtual, sublinhe-se, com as provas exigir os órgãos de justiça, uma condenação exemplar, como forma de prevenir próximos casos do género na comunidade de Chiulugo – interior da cidade de Lichinga e quiçá – em todo o país.