Dos apitos, falamos depois.
Época do ano em que os dias da semana são esquecidos; apenas interessam os números… 25, 26, 27… ou, na contagem regressiva, diz-se: faltam 05, 04, 03… dias para o Natal e/ou o Ano Novo. Quase todos os dias é festa, em Lichinga, com passeatas carnavalescas nas ruas da urbe, até o novo ano se instalar.
Não foi diferente naquele ano. Durante o dia, as bandeiras feitas de capulana foram baptizadas pela chuva, que quase não deu muitas horas de pausa e continuou até cair a noite. Chovia tanto. Era dia de “Unhago”; havia ali, na casa ao lado, festa de “Unhago”. O barulho da chuva sobre as chapas de zinco competia com o som da aparelhagem de milhares de watts que havia sido montada para a efeméride e quase não se ouvia a música.
Qual som era preferível, o da aparelhagem ou o das gotas intermitentes da chuva sobre as chapas de zinco? — perguntou Zarastruta à sua amada esposa, quando a chuva ia branda, abanando a cabeça e dando alguns passos de dança em direcção à retrete. Tocava aquele beat, a febre do momento, Djey Djey… do ritmo “Kadhoda”, antecedido de Matacopé, Mwachome Chueweee…
Zarastruta estava leve e fresco. Era depois de ter desfrutado da primeira volta do banquete de romance. O barulho dos gemidos não foi poupado; não havia como as crianças, sentadas na sala de estar, separada por um pano de capulana feito cortina que terminava nos joelhos, não ouvirem os gritos involuntários de celebração e exaltação do amor interferirem.
Era convidativa a chuva: chuva, café e livro, uma combinação perfeita. Havia lido isso em algum lugar. Zarastruta disse-o à sua amada depois de ler apenas uma página do livro de Bernhard Schlink — O Leitor. Como o título sugeria, Zarastruta também foi leitor: não das páginas do livro tradicional; leu outro livro, o livro da história da criação, movido pela gula que surgiu depois que leu, claro, o livro de romance O Leitor.
— Chuva, cafezinho e livro, uma combinação perfeita para um romance — disse, zombeteira, Alima, assim que Zarastruta voltou molhado da retrete, convite irresistível para entrar, mais uma vez, no calor dos braços e na doçura das páginas do livro Alima, debaixo dos cobertores.
É assim que as residências da banda são: a retrete dista uns bons metros da casa. Imaginem quando se é acometido por uma diarreia; pode-se virar um bom atleta olímpico, fruto de treinos feitos para atender à emergência de convulsão estomacal, indo e voltando da retrete.
O que Zarastruta não sabia é que Alima estava a marcar território, feito galo que canta para dizer “aqui mando eu”. É práxis: nas festas de Unhago, uma libertinagem se instala depois de uma semana ou mais vendo missangas fora do lugar nos bailados carnavalescos das meninas, e quase ninguém quer perder o pico da festa, e vira noite bacanal. Ninguém é de ninguém; dança-se com todos.
Dar belas doses de leitura do meu livro ao Zarastruta fará com que não se interesse por mais nada do género durante a festa de Unhago na vizinhança — pensou e construiu, na prática, este plano Alima. E deu efeito. Depois da terceira tempestade de leitura do livro, Zarastruta caiu no sono e só despertou às 4 horas do dia seguinte, com o som alto dos altifalantes no seu melhor momento. Ouvia-se lá fora vozes brandas, exibindo cansaço de voz de tanto cantar madrugada adentro: Djey Djey, Djey Djey…
Já era tarde, quatro horas da manhã, hora em que a vergonha desperta e faz o seu trabalho: tornar o seu amo um ser sensato.
Qual som é mais agradável, o dos altifalantes no Unhago ou o da chuva sobre as chapas de zinco? Uma pergunta de Zarastruta que permanece sem resposta e sem a certeza se Alima passou a noite sonhando com o belo dos astros, igual a ele na cama, ou se foi movida por um mínimo de curiosidade, “curtir” o Unhago por uns minutinhos e cedeu?!
Dos apitos, falamos depois; porém, gostaria de ser amigo dos batuqueiros e vendedores de apitos nesta época do ano – Por Luís Madaba (Kambunga).













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