Dia 14 de Fevereiro: quando o amor se mede pelo preço

À medida que o dia 14 de Fevereiro se aproxima, repete‑se em Moçambique um ritual já conhecido. As montras tingem‑se de vermelho, os restaurantes ajustam os preços e as redes sociais preparam‑se para mais uma exibição coletiva de afeto. Tudo parece cuidadosamente montado para celebrar o amor. Mas basta olhar com atenção para perceber que, muitas vezes, o sentimento fica em segundo plano, enquanto o consumo ocupa o centro da cena.


Surge então uma pergunta simples, mas necessária: que amor é este que celebramos, e por que razão o fazemos no dia 14 de Fevereiro?


O chamado Dia dos Namorados não nasce da história moçambicana. As suas origens estão ligadas a tradições europeias, associadas à figura de São Valentim, que pouco dialogam com as nossas vivências culturais. Em Moçambique, esta data não emerge da memória coletiva nem das narrativas transmitidas pelos mais velhos. Chegou‑nos de fora, foi repetida, normalizada e, com o tempo, transformada num padrão quase obrigatório.


O problema não está na celebração do amor, mas na forma como ela tem sido conduzida. Aos poucos, o sentimento foi sendo empurrado para o campo do material. Flores, jantares e presentes tornaram‑se símbolos quase exclusivos de afeto. Quem pode oferecer, prova que ama; quem não pode, sente‑se excluído. Assim, o dia 14 de Fevereiro acaba por expor, de forma silenciosa, as desigualdades sociais que marcam o país. Fica a interrogação desconfortável: ama menos quem tem menos?


Durante muito tempo, o amor em Moçambique seguiu outros caminhos. Não precisava de calendário nem de vitrinas. Manifestava‑se na partilha do pouco que havia, na solidariedade entre famílias, na construção paciente da vida a dois. Era um amor vivido no quotidiano, sustentado pelo compromisso e pela presença, não pelo espetáculo público.


É por isso que vale a pena questionar se não chegou o momento de repensar esta data. Não poderíamos celebrar o amor a partir da nossa própria história? Não existe, real ou simbolicamente, uma narrativa moçambicana que pudesse dar sentido a um Dia dos Namorados nosso? Um amor que resistiu à guerra, à distância, às dificuldades económicas, ao tempo?


Onde Estão os Nossos Heróis do Afeto?


​A grande questão que esta data levanta é a ausência de uma âncora histórica nacional. Por que celebramos um bispo romano que nunca sentiu o cheiro das nossas manhãs húmidas ou da terra vermelha após a primeira chuva de outubro?


​A história de Moçambique está repleta de figuras e episódios que poderiam, e deveriam ancorar a nossa própria celebração do afeto. Precisamos de olhar para o nosso passado não como um arquivo morto, mas como um reservatório de símbolos românticos.


​A nossa história é, em grande parte, uma história de partidas. Milhares de homens partiram para as minas da África do Sul, o mítico Jonni, deixando para trás mulheres que guardaram o fogo do lar por décadas. Este amor de distância, alimentado por cartas raras, por fotografias a preto e branco e pela esperança indomável do reencontro, é de uma densidade literária superior a qualquer tragédia de amor europeu. É um amor que resiste à ausência física e que é, em si mesmo, uma instituição de resistência nacional.


​Se buscamos um exemplo de devoção absoluta, por que não olhar para as esposas do Imperador Ngungunhane? No momento da queda e do exílio forçado para os Açores, a lealdade daquelas que o acompanharam para o desconhecido oceânico representa um amor que transcende o ego e se funde com a dignidade política. É o afeto transformado em destino comum.


​​Se lermos os nossos poetas, percebemos que o amor moçambicano é um amor de “mãos dadas com a liberdade”. Para José Craveirinha, amar não era um acto isolado, mas uma comunhão com o destino do povo. Na prosa de Mia Couto, o amor é muitas vezes uma entidade mágica que cura as feridas da guerra e reconstrói o mundo a partir dos escombros.


​Esta literatura ensina-nos que o nosso 14 de Fevereiro não deve ser uma cópia. O nosso amor; ele cheira a mar e a lenha. Ele não precisa de cupidos de plástico quando tem a força das nossas acácias, que florescem mesmo quando o chão parece árido.


​Para uma Descolonização do Afeto, ​esta data, embora importada, precisa ser “moçambicanizada” pela força da vida.


​O convite aqui não é abolir a data, mas subvertê-la. Que os nossos artistas e pensadores institucionalizem a nossa própria narrativa. Até lá, que celebremos este dia como o que ele realmente é: não um festival de consumo, mas um acto de resistência poética. Porque em Moçambique, amar é, antes de tudo, acreditar que amanhã o sol voltará a nascer sobre o Índico, e nós estaremos lá, juntos, para o receber.