Presença Assídua Nos Programas De Entretenimento Dos Maiores Canais Nacionais, O Activista Cultural, Altino Mandlaze, Fala De Um Estado Anímico Das Artes E Recomenda Um Recesso Para Garantir A Produção E Rentabilização Do Produto Local
O activista e analista cultural, Altino Mandlaze, queno mundo das artes e cultura se assume como um cortesão não pago. Um olheiro não contratado, um guardião da tradição e espelho da progressão. Um indivíduo que não espera perguntas para expressar suas crenças na capacidade de transformar e tornar os movimentos culturais de maior qualidade e sustentáveis. O também escritor, vê se como um mero mortal das críticas des(construtivas) das artes e cultura, e de forma mais ousada, assume o risco ainda que hipotético: “talvez eu seja o único romancista moçambicano que dialogou com o diabo em a Entrevista com o Diabo, e igualmente, o único poeta em Moçambique e no mundo que escreveu o pior poeta do mundo em Poetas em Coma“.
Para o activista, fazer o activismo cultural numa sociedade hostil ou aversa à critica como a moçambicana, significa perseverar ou lutar pela preservação do maior e melhor dos legados que pode deixar aos filhos, a cultura, que como dizia o Marechal Samora Machel: “é o sol que nunca desce”. Ainda, aponta a razão para o colapso das artes, a proliferação das manifestações artísticas estrangeiras no país, e a culpa desse desiderato, está na fome e na falta de incentivos por parte de quem devia pagar e motivar os fazedores das artes na produção de conteúdos nacionais em detrimento dos importados.

“A arte virou negócio, e quando se chega a esse nível, a cultura deixa de ter valor e passa a ter preço.”
Altino sustenta que a arte deve ser ensinada, apreciada e não financiada, pois no seu entendimento, financiar a arte é assumir que ela não produz riqueza, que não se sustenta.
“A arte é um produto de valor por si só, se o artista não consegue vender sua arte, uma manifestação cultural que devia identificar um certo grupo ou não é arte ou lhe falta algo.”
Face aos desafios sobre a indústria de entretenimento fora das grandes cidades (Maputo, Beira e Nampula), para o analista, cabe aos fazedores de entretenimento fortificar a indústria e investir no futuro. Para ele, falta ousadia aos promotores, o que gera fraca valorização aos artistas locais, consequentemente, conduz à crença de que para o sucesso de um evento, deve se apostar em artistas de fora da região ou do país (Angola) e na falta desses, ficam inanimados.
O analista cultural, vaticina o domínio da mídia social, onde o espaço cibernético capturou a atenção da juventude. Aponta as polémicas como maior recurso da mídia tradicional, colocando em segundo plano a qualidade, depois da insanidade. Em ascensão, Mandlaze indica as plataformas digitais, das quais faz uma apreciação positiva, embora não suficientemente bem aproveitadas por a maioria dos criadores de conteúdos nacionais (humoristas) fazerem réplica de conteúdos estrangeiros (nigerianos).
Sobre os criadores de conteúdos que ainda se dedicam em temas educativos, originais e próximos a realidade, Altino Mandlaze, a dedo indica Coelhinho, que inspira pela idade e qualidade.
Na visão do crítico cultural, o artista que vive em Niassa ou em qualquer local, não precisa competir com artistas da capital ou outros das grandes cidades. E acrescenta que é a competição que mata o artista, ele precisa se vender primeiro na sua zona de conforto (localmente) e somente depois para o mundo, pois se nem entre os seus consegue singrar, como singraria no país inteiro? Talvez por sorte.
“O Kadoda só bateu porque era original… entrou em monotonia, vendeu muito, mas parou no tempo.”
Clínico e muito cuidadoso, Altino sustenta que o kadoda só teve impacto por ser um produto original, o que reforça a posição de que a arte não tem fronteiras. Entretanto alertou: o kadoda entrou em monotonia, vendeu muito, mas agora parou no tempo, pois pouco se cria e corre o risco de seguir o caminho dos outros fenómenos como o bondoro ou pandza.
É assim como Altino Mandlaze antevê o futuro do produto cultural mais mediático que Moçambique criou nos últimos tempos. Que, entretanto, quando questionado sobre o que pode estar a falhar na indústria cultural e criativa de Moçambique, de forma mais contundente e directa, afirma: “não existe, não temos indústria cultural nem criativa em Moçambique”.
Para o efeito, ele sustenta que o país teria que fazer um recesso. Pois, apesar da existência de conteúdo, este apenas serve para eventos como festivais nacionais, sem nenhuma continuidade pós cerimónias. O consumo do produto cultural depende do que se oferece ao público e do que este é capaz de pagar, mas em Moçambique temos artistas nacionais que vivem da arte estrangeira, ou para se manter ou pela obsessão de venda. Ainda, para o Altino, o dinheiro produzido pelas artes, a parte que fica não permite a construção de uma indústria. A maioria da receita gerada pelas artes e cultura vai ao estrangeiro. O recesso permitiria criar políticas proteccionistas, para garantir que o que a cultura e entretenimento produz fique, e depois as políticas expansionistas, para gerar renda no país a partir do que se produz fora.

Para o Altino, o primeiro ponto para a construção de uma indústria é a gestão de carreiras artísticas. Na sua visão, o artista devia ser uma empresa, entretanto, em Moçambique, o mesmo, cria arte, é empresário, agente, assistente, produtor, compositor e investidor de si próprio. E mais, afirmou que há muita diferença entre os caches que Moçambique paga aos artistas estrangeiros em relação aos nacionais, e acrescentou que tal deve se a falta da estrutura do combinado nacional.
“Como eu, há muitos moçambicanos que escrevem, apenas lhes falta oportunidade de editar, pois em Moçambique quase não há editoras para livros, apenas gráficas.”
Na sua obra de estreia, “A Entrevista com o Diabo” Altino Mandlaze, diz dar oportunidade a cada leitor de dialogar com diabo e inclusive no final poder matá-lo. Fala de um confronto honesto no qual o leitor se vê mergulhado, e sugere que o mal não é uma figura externa e mística, mas um residente das próprias mentiras, ganâncias e indiferença. Na sua saga de escrita, em menos de duas semanas, o escritor, lançou o segundo livro, o “Poetas em Coma“, que para si vai muito além de oferecer versos. É um manifesto para o despertar da alma humana. Uma crítica à modernidade líquida, que pretende expor as fissuras da era digital. Mais adiante, fala de uma era de solidão acompanhada, onde se troca cartas de amor por favores de mercado e conexões reais por algoritmos frios.
À UPILE, Altino Mandlaze, augura um futuro risonho, sobretudo se a aposta for forte nas redes sociais onde o mundo actual se conecta e vive. Apesar disso, criatividade e inovação sempre na dianteira.















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