𝐀 𝐓𝐑𝐈𝐒𝐓𝐄 𝐌𝐎𝐑𝐓𝐄 𝐃𝐎 𝐍𝐓𝐎𝐋𝐈𝐋𝐎: 𝐎 𝐒𝐀𝐍𝐆𝐔𝐄 𝐐𝐔𝐄 𝐕𝐀𝐋𝐈𝐀 𝐌𝐄𝐍𝐎𝐒 𝐐𝐔𝐄 𝐎 𝐂𝐀𝐈𝐗Ã𝐎
Na urbe fria de Lichinga, onde o crepúsculo desce como um véu de poeira sobre sonhos tardios, Ntolilo caminhava entre a dignidade e a escassez. De dia, lavava e passava roupas alheias como quem alisa as próprias esperanças, à noite, frequentara a Universidade Rovuma, colhendo um diploma que o destino tratou como folha errante ao vento. Enquanto os parentes, comerciantes opulentos, directores de gabinete e figuras influentes, ostentavam prosperidade pelas avenidas da cidade, ele regressava humilde da sua labuta, até que certo dia, o asfalto da zona do Prédio 24 o reclamou em um atropelamento súbito, como se a própria Avenida tivesse decidido cobrar o tributo silencioso da pobreza.
No Hospital Provincial de Lichinga, a vida de Ntolilo pendia de um fio rubro: sangue. Havia doadores, aliás, vendedores de sangue, havia tempo, havia possibilidade, mas, não houve desprendimento. Entre justificativas tíbias e indiferenças bem penteadas, o jovem extinguiu-se (feneceu) como vela esquecida na janela da noite. A notícia chegou breve e pálida, e a família, que não encontrara moedas para salvar-lhe o pulso, encontrou prontamente recursos para organizar-lhe o adeus.
No pátio da casa, enquanto o corpo repousava em silêncio definitivo, as vozes começaram a entrechocar-se como folhas secas ao vento:
__Se fosse preciso cinquenta mil ontem, ele estaria vivo. Murmurou Akuzike.
__Mas hoje juntam isso em minutos para enterrá-lo, respondeu Aleyaani.
Uma senhora suspirou, era dona Naza: __Riqueza sem compaixão é apenas uma casa cheia de portas fechadas.
Wanhika replicou em tom amargo:
__A cidade inteira viu o esforço dele, mas, a própria família viu apenas a sua pobreza.
O funeral tornou-se então um teatro de lágrimas tardias e murmúrios ferinos. Chorava-se alto, mas, cochichava-se mais alto ainda: alguns denunciavam a ironia de um pobre nascido entre ricos. Outros acusavam vaidades e superstições, e havia quem aguardasse apenas o repasto: vaca abatida, galinhas, arroz e feijão, refrigerantes e bebidas alcoólicas, como se a morte fosse mero prólogo de um banquete.
Entre as vozes dispersas, uma mulher murmurou que sempre desejara encontrar Ntolilo em segredo; agora, apenas a terra o abraçaria.
Assim, o jovem Ntolilo, que vivera invisível tornou-se súbito centro de abundância, não para viver, mas, para ser sepultado.
Fica, pois, uma advertência antiga como o próprio tempo: o dinheiro que se nega à vida transforma-se em inútil ornamento diante da morte. Antes de comprar coroas para o caixão, aprendamos a oferecer mãos a quem ainda respira.
Por: 𝐌𝐛𝐞𝐩𝐨𝐳𝐢𝐧𝐞 𝐌𝐚𝐜𝐡𝐞𝐜𝐡𝐞.













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