Chamavam-no Bonha, nome de guerra de um combatente da RENAMO, natural de Milange, na província da Zambézia, mas, o destino tratou de rebatizá-lo com um epíteto que soaria a milagre: Tchabwera Kumanda, expressão do Chichewa que significa “aquele que voltou do cemitério”.
Entre 1977 e 1992, durante a guerra civil que opunha a FRELIMO à RENAMO, Bonha integrava e liderava um grupo de dez militares.
A missão que os movia era tão arriscada quanto recorrente: atravessar clandestinamente a fronteira, penetrar em aldeias do Malawi, saquear mantimentos e bens essenciais, e regressar a Milange para sustentar a máquina de guerra.
- Entramos como sombra e saímos como vento.
Dizia Bonha, com a frieza de quem já naturalizara o perigo.
O Malawi, sob o regime severo de Hastings Kamuzu Banda, onde a pena de morte vigorava como sentença última, tolerava a presença estratégica da RENAMO, mas, não admitia desordem interna, sobretudo quando esta se traduzia em saques à sua própria população.
Alertadas para as incursões de uma quadrilha estrangeira armada, as autoridades malawianas montaram uma emboscada meticulosa.
‐ Hoje o silêncio está mais pesado.
Murmurou um dos homens do pelotão antes da travessia fatal, era o Ossipa.
Ao penetrarem numa zona já vigiada, foram cercados, capturados em território malawiano e conduzidos a um julgamento sumário. A sentença foi imediata e irrevogável: pena de morte para os dez integrantes.
O grupo de dez foi separado pela ordem inexorável do calendário da execução, um por um, como velas sendo apagadas na mesma sala escura.
Na penitenciária de máxima segurança, a morte não chegou para todos ao mesmo tempo, chegou em parcelas.
‐ Levaram o terceiro… ontem foi o quinto.
Sussurrava um prisioneiro de outra cela, era o Nikussi, enquanto o eco das botas anunciava ausências definitivas.
Bonha assistiu, impotente, ao esvaziamento gradual do seu grupo: nove dos seus companheiros foram executados antes de qualquer mudança política. Ele, porém, tinha a data mais distante, como se o destino lhe tivesse concedido um intervalo indecifrável.
Na cela, já sem os seus, passou a partilhar o espaço com outros condenados. Os prisioneiros passaram a viver sob a sombra constante da execução.
‐ Quantos dias te restam?”, perguntou Otaka, seu parceiro de cela, com a voz corroída pela angústia.
Bonha, com um olhar já distante, respondeu:
‐ Aqui, o tempo não se conta, espera-se.
Os dias dilataram-se em meses, e os meses em anos, como se a morte tivesse decidido adiar-se. Em 1997, com o falecimento do Presidente Hastings Kamuzu Banda e a ascensão de um novo governo no Malawi, ocorreram mudanças profundas: a pena de morte foi abolida, e, por via de negociações diplomáticas, os estrangeiros condenados receberam um indulto.
‐ Estamos livres?
‐ Então, a morte desistiu de nós?
Perguntou Nikussi, outro prisioneiro, incrédulo. Bonha respondeu apenas:
‐ Fomos arrancados da morte… o resto ainda é mistério.
E, naquele instante, a sobrevivência deixou de ser alívio e tornou-se também memória pesada dos que não tiveram a mesma demora.
Anos após a notícia de que jamais voltaria, Bonha reapareceu em Milange como quem regressa de um lugar onde já não se pertence ao mundo dos vivos. Ao atravessar o quintal da sua casa, alguém gritou, tomado de espanto:
‐ Bonha… Tchabwera Kumanda: (aquele que voltou do cemitério), és mesmo tu?
Ele respondeu com voz baixa, quase espectral:
‐ Sou o que restou.
A mãe, ao vê-lo, caiu em síncope, vencida pela avalanche de emoção. Dos dez homens que compunham o grupo, nove tiveram seus destinos consumados pela sentença (morte), mas, Bonha regressou, não ileso, mas, vivo.
E desde então, o seu nome deixou de ser apenas identidade: tornou-se testemunho, memória viva de um tempo em que até a morte, por instantes raros, pode falhar.
𝐌𝐛𝐞𝐩𝐨𝐳𝐢𝐧𝐞 𝐌𝐚𝐜𝐡𝐞𝐜𝐡𝐞.













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