Por Geraldo Cebola (Cbaskovic)
Samora dizia “vamos matar a tribo para nascer a nação” e, com todas as diferenças a debater, nasceu a nação moçambicana.
Nós dizemos que não vamos matar a poligamia para nascer a monogamia, mas o que nasce são pensões/quartos que germinam como cogumelos por tudo o que é canto para permitir e legitimar as traições.
Queremos uma geração de pensões ou preferimos a poligamia.
Mas para acolhermos a poligamia há que aceitarmos a possibilidade da poliandria? Essa é que é a questão. Se não for, então seremos uma lei machista e o feminismo ocidental terá sempre força.
Eu sou defensor do feminismo africano e não eurocêntrico, e como resultado tenho algumas diferenças na percepção sobre a monogamia e a poligamia. E a minha teimosia de historiador têm me empurrado para outra margem da defesa do feminismo. Do mesmo jeito que não concordo com a falácia do desenvolvimento sustentável por ser falácia do Banco Mundial (mas para lá irei noutro texto).
As comunidades africanas foram sempre poligâmicas, antes da chegada dos missionários europeus munidos da Bíblia, o sagrado livro mais conhecido e consultado do mundo. Nas nossas sociedades o homem casava e ainda levavam a irmã da noiva para ir ajudar “nenecar” OS FILHOS. NO CASO DA NOIVA NÃO GERAR FILHOS, o homem podia casar a irmã ou a nenecadora quando tivesse idade, visto que já estava treinada.
Voltando aos factos, afirmamos que: a poligamia sempre parte do modus vivend das sociedades africanas antes da intromissão do cristianismo com seus valores monogâmicos com suporte bíblico.
A poligamia continua a ser comum em grande parte de África. E Moçambique não está isento desta realidade social. Em grande parte da região norte de Moçambique e nas regiões costeiras/litoral do país a poligamia é encarada com naturalidade por causa da influência da religião islâmica que agrega maior número da população. Diferentemente do centro e sul do país em que maioria da população professa a religião cristã, dividindo-se entre católicos e protestantes. Os católicos, assim como os protestantes, baseando-se no seu livro Sagrado (a Bíblia), não aprovam a poligamia.
Foi na base desta tese que o colonialismo se aliou à Igreja e combateu os valores culturais africanos, em toda a África e em Moçambique, em particular. Pregou-se que as nossas línguas não eram línguas, que os nossos deuses, como Mphondoro (para o caso do centro de Moçambique/Manica), eram demónios. Que o céu era branco e os anjos também eram brancos e de asas brancas (não estou a atacar). Que as trevas eram negras. Que tudo o que fosse negócio ilegal pertencia ao mercado negro. Que fazendo a quarta classe, ser assimilado, falar e escrever a língua portuguesa; decorar os nomes dos rios de Portugal (como o Tejo e o Douro), decorar os nomes dos reis portugueses era sinónimo de ser branco português. Neste contexto, práticas sociais como a poligamia eram pecado e selvajaria.
É preciso ressalvar que, por causa da globalização, e do esforço de criação duma humanidade global, com valores universais que são ditados a partir do consenso de Washington, que para tal usam a mídia, a internet e TV, mesmo casais muçulmanos tendem a ser monogâmicos. Assim como existem casais em regiões de predominância cristã que são poligâmicos.
Em vários países da África subsaariana, mais de 10% das mulheres casadas estão numa união poligâmica. Entre o Senegal e a Tanzânia estende-se um “cinturão da poligamia”, no qual é comum encontrar mais de um terço das mulheres casadas em relações poligâmicas. A poligamia tem sido apontada como uma possível causa das baixas taxas de poupança em África, da elevada incidência de VIH, dos elevados níveis de mortalidade infantil e da depressão feminina.
A positivação do cristianismo e da monogamia eram acompanhadas, necessariamente, da negativação de outras espiritualidades e de outras formas de laços afectivos indígenas. O pesquisador comenta que, também por isso, a imposição cristã foi, em nosso território, um dos primeiros grandes marcos do racismo estrutural. A tutela decorrente desse processo acompanha o racismo anti-indígena até hoje. A presunção de que precisávamos ser salvos orientou todo o processo de evangelização, afinal como pontuam em suas próprias cartas, os jesuítas não vieram para cá esperando serem salvos por indígenas, mas sim serem os salvadores. Se não acreditassem que seu Deus era o único possível, “o único caminho, a verdade e a vida” (BÍBLIA, João, 14), se concebessem a legitimidade da existência de outros deuses, a motivação para o projeto colonial não teria se estabelecido da mesma forma (Núñez; et al, 2021, p.78).
Por ser um texto provocativo e de opinião, termino com as perguntas abaixo:
- As mulheres afirmam, no meu país, que os homens são poucos por isso há necessidade de partilharem os homens, o que falta são homens ou homens que as sustentem?
- A monogamia é um modelo de casamento que assenta nos valores e comportamentos nossos como africanos?
- Porque há tanta traição, se o casamento monogâmico nos satisfaz?
Para quem queira aprofundar seu conhecimento sobre o tema pode ler:
Fenske, James. (2011). African polygamy: past and present. Originally presented at Modern and comparative economic history seminar, 03 November 2011, London School of Economics and Political Science. This version available at: http://eprints.lse.ac.uk/39246/
Núñez, Geniet al. Monogamia e (anti)colonialidades: uma artesania narrativa indígena. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais – UFJF v. 16 n. 3 Dezembro. 2021 ISSN 2318-101x (on-line) ISSN 1809-5968 (print)
















Leave a Reply