“VALORIZAR AS ARTES PLÁSTICAS É TAMBÉM DECORAR PAREDES DE HOTÉIS COM OBRAS DE ARTISTAS LOCAIS”

Rosário Harare

Um Mestre de inúmeros ofícios, mas tem nas artes plásticas, a maior dívida de todas, por tudo quanto os pincéis, as tintas e os quadros deram na sua vida durante uma trajectória de mais de 4 décadas bebendo do suor de cada pincelada.

Rosário Harare, em conversa com a UPILE, não falou de Maúa como apenas o guardião do seu cordão umbilical. Para si, é o celeiro que forjou o seu talento; a casa onde a espiga a cada grão alimenta sonhos e mata cede de quem algum dia ousou questionar a fertilidade do seu ventre.

Lembra a sua infância e os tempos da disciplina de desenho na década de 80, com uma esperança nostálgica de hoje, também ver mais jovens talentos paridos nas aulas de Educação Visual. Conta que no início era apenas representação de objectos, a paisagem ou a natureza usando um lápis, acompanhado por um dom artístico, onde suas obras eram sempre distinguidas e exibidas no átrio da escola, uma exposição apreciada e elogiada por muitos, servindo assim de combustão para a sua veia artística.

Sempre criativo, nenhuma ausência de material o limitou. Na falta de tintas apropriadas, usava tinta das canetas e misturava com petróleo para variar as cores nas obras. A outra técnica aperfeiçoada foi o fumo produzido por chaminé que misturado com o petróleo, produzia a tinta preta.

Com paixão, fala de obras da sua arte em quadros, retracto, letras, textura ou em murais na praça pública. É nestes últimos que reside o registo que mais considera marcante, quando em 2010 requalificou a Casa de Cultura, o Mural da Praça Infantil e o da Residência Oficial de Administrador em Marrupa, no âmbito da visita presidencial, das suas mãos, a Vila ganhou vida e dignidade para receber um Presidente da República. Em 2012, pintou o memorial da Praça dos Heróis em Metangula, uma forma de fortalecer a consciência histórica dos nossos povos, cujos bónus lhe renderiam a primeira viatura de transporte público.

Para Harare, há conquistas imensuráveis. A auto-expressão e construção da identidade, estímulo ao raciocínio crítico do trabalho executado, representam algumas dessas conquistas, como verdadeiras bandeiras do artista. Entretanto, carregado de emoção, aponta o reconhecimento público pela sua obra, como a maior das conquistas que um artista deve desejar.

“Não ensinei os meus filhos as artes, eles herdaram esse dom.”

Rosário Harare, como qualquer pai, doou seu DNA aos seus 3 filhos, que criam uma harmonia perfeita entre as artes plásticas e o design, como o poeta sustenta suas relações entre os versos e estrofes. O pai de 3 artistas, conta que os filhos aprenderam a pintar como quem escreve no livro da vida, trilhando seus próprios caminhos. Os 3 artistas, cuja assinatura “Harare Filho” é uma marca que fala mais do que presença, iniciaram a arte em paredes da vizinhança, onde as assinaturas falavam mais do que o material que cada vez mais escasseava na oficina. Uma família feita para as artes, as meninas também falam o seu idioma pelas mãos, embora se comuniquem n’ outras artes.

Não existe Harare sem as artes, para além das artes plásticas, a sapataria ao longo dos anos foi outra arte cujas mãos lhe ensinaram, que mais do que concertar, produzia sapatos que o tornaram fornecedor para figuras como Governador de Niassa. Nesses anos beneficiou de financiamentos e conheceu diversos cantos da zona norte e parte dos países vizinhos como Tanzânia, Malawi e Zimbabwe a busca de matéria prima. Seu projecto só cessou com o aparecimento de fardos de sapatos de calamidade.

Na sua vivacidade e adaptabilidade, Harare conheceu na fotografia outra paixão, que por muitos anos deu lhe sustento antes da era digital. Quando a fotografia deixou de render, de 1996 a 2000, o Vídeo Clube Harare foi outra iniciativa célebre e bastante lucrativa, onde a cada metical, Lichinga conhecia a 7ª arte, dando vida, imagens e som nos ecrãs espalhados em 5 bairros. Apesar disso, ele aponta que mesmo quando as suas mãos emprestaram outras artes, o desenho artístico, esteve sempre presente na sua vida.

Para Harare, o ingresso no IFAPA foi fundamental para conciliar as artes e a carreira de servidor público. Ainda assim, na Repartição da Cultura do Serviço Distrital de Educação, Juventude e Tecnologia de Lichinga, encontrou um lar, que sustenta seus sonhos, seu desejo e ambição de ajudar jovens no aperfeiçoamento das artes, tarefa que lhe ocupa o dia a dia nas comunidades, como mais do que servidor público, um caça talento.

“A abertura de uma Praça das Artes seria uma forma de celebração da nossa Cultura.”

Com as potencialidades turísticas e culturais do Niassa, sonha em ver mais promoção das artes plásticas, e aponta a presença de artistas locais nas paredes dos grandes hotéis assim como venda e exposição de obras de artes para maior divulgação e fortalecimento da indústria cultural e criativa da província.

Fala de uma gratidão enorme no mundo das artes. Sente se suficientemente valorizado, razão pela qual até os próprios filhos vivem na sombra do seu legado. Mas como artista, não vive atento apenas ao seu próprio umbigo, aprecia talentos que também forjaram Niassa no mundo das artes plásticas, e faz vénias a nomes como do saudoso Chingolo, ou do Mestre Canhão e o Chavito.

Como sonhador, espera ver mais jovens talentos em palcos cujos degraus habitem alturas que sua carreira não escalou. E para esse sonho tornar- se real, empresta sua capacidade criativa para resgatar artistas nas comunidades e nas escolas nos diversos concursos. Para ele, a abertura de uma Praça das Artes seria a cereja num bolo já decorado de todas variações das artes plásticas.

Texto d’Artimisa J. Mucavele