Raça de Víboras

Preto.

Preto de olhos castanhos, enevoados pelo fumo do cigarro.

Olhar cansado, pele marcada pelo peso da espera,

de tantas respostas que nunca chegaram.

Raças de víboras.

Víboras que espalham o medo por todos os continentes,

mas que também enxergam ameaça

numa pele negra,

em cabelos crespos

e num olhar firme e intimidante.

Preto.

Preto escravo.

Chamado de filho bastardo da Mãe África,

que, por ironia da história,

foi a última a receber de volta aquilo que dela foi arrancado.

Pai nosso que estás no céu,

eu sou preto.

Preto pertencente a esta África,

África que testemunhou o nascimento

do seu filho amado.

Dizem que sou amaldiçoado por ser preto.

Preto de olhos castanhos,

enevoados pelo fumo do cigarro.

Mas a minha pele não é maldição.

É memória.

É resistência.

É herança.

É a prova de que sobrevivi

a todas as víboras que tentaram envenenar e calar a minha existência.

Mixaque Lucas