A VIÚVA RICA E BELA, QUE AINDA ESPERA POR UM VERDADEIRO LAR Por Francisco Fernando Camilo

Por Francisco Fernando Camilo

Na costa sudeste da África Austral habita uma mulher de rara beleza. A norte, é abraçada pela Tanzânia; a noroeste, pelo Malawi e pela Zâmbia; a oeste, pelo Zimbabwe; a sudoeste, pela África do Sul; e, mais ao sul, pelo Reino de Eswatini e novamente pela África do Sul. Entre esses vizinhos vive uma grande dama, cuja elegância parece ter sido cuidadosamente esculpida pela própria natureza. Poucas mulheres foram tão generosamente contempladas pelo destino.

No seu ventre repousam imensas reservas de gás natural; nas suas mãos cintilam rubis, grafite e areias pesadas; sob os seus pés escondem-se ricos veios de carvão mineral; os seus campos são férteis, os seus rios abundantes, o mar que a banha oferece generosos recursos pesqueiros e as suas paisagens parecem convidar o mundo inteiro a contemplar a sua beleza.

Extraordinariamente rica, mas, há um paradoxo que desafia qualquer lógica: apesar de toda a sua beleza e de toda a riqueza que possui, continua sem encontrar alguém que verdadeiramente a tome como seu lar.

É admirada, desejada e disputada, mas raramente amada com a profundidade que merece. Conta-se que, em tempos passados, foi feliz ao lado de dois grandes maridos. Homens que a trataram com coragem, lealdade e devoção, libertando-a daqueles que, durante séculos, haviam saqueado as suas riquezas e aprisionado a sua dignidade. O destino, porém, revelou-se implacável. Ambos perderam a vida em circunstâncias que a História jamais conseguiu explicar de forma consensual.

Um foi vítima de uma bomba dissimulada numa encomenda; o outro pereceu num dos mais enigmáticos acidentes aéreos envolvendo um chefe de Estado. As dúvidas sobreviveram ao tempo e continuam a alimentar debates entre historiadores, juristas e estudiosos.

A jovem viúva voltou a despertar inúmeros pretendentes. A sua beleza nunca deixou de fascinar, e a abundância das suas riquezas tornou-a ainda mais cobiçada. Não lhe faltaram companheiros dispostos a conduzir o seu destino. Alguns demonstraram genuína dedicação; outros limitaram-se a prometer um futuro radiante sem jamais conseguirem transformar as palavras em realidade.

Curiosamente, parece haver uma estranha ironia que acompanha a sua história: quanto menor o amor concedido à viúva, maior parece ser a probabilidade de o marido permanecer vivo. Naturalmente, trata-se apenas de uma reflexão alegórica, incapaz de produzir qualquer conclusão científica, mas suficientemente provocadora para despertar a curiosidade dos filósofos e dos estudiosos da condição humana.

Raramente teve um marido sem adversários ao redor. Alguns pretendentes mostraram-se à altura do marido; outros nem sequer alcançavam os seus passos. Havia os que falavam com lógica e prudência, e havia também os que, movidos apenas pela ambição, chegavam ao absurdo para conquistar a sua atenção.

Como qualquer mulher que valoriza a estabilidade do lar, ela hesita. Não sabe se deve confiar nas promessas grandiosas de um futuro aparentemente sustentável ou agarrar-se ao pouco, porém concreto, que já possui nas mãos. Entre a esperança e o receio, escolhe continuar ao lado de um marido que administra a casa, mas que nunca chega a fazer dela o seu verdadeiro lar.

Os seus filhos, entretanto, cresceram distraídos pelo poder de provisão de cada pai. Encantados pelas diferenças herdadas, esqueceram-se da origem comum. Já não reconhecem com clareza o valor do mesmo cordão umbilical que os uniu desde o princípio.

Por isso, não causa espanto ver entre eles divisões semelhantes às que afligem tantas outras famílias do mundo. Traem-se, excluem-se, desprezam-se e, por vezes, comportam-se como estranhos que disputam o mesmo teto. O sangue que deveria aproximá-los parece, em certos momentos, incapaz de silenciar os gritos da rivalidade.

Talvez seja essa a tragédia inscrita no destino da viúva. Algumas relações terminaram em dor porque os maridos a amaram intensamente; outras desapareceram simplesmente porque o tempo consumiu um amor insuficiente. E os filhos, nascidos de diferentes histórias, raramente fazem o esforço necessário para reconhecer a irmandade construída pelo ventre da mesma mãe.

Enquanto isso, novos pretendentes continuam a surgir, trazendo discursos sedutores e promessas de prosperidade. Contudo, muitas dessas promessas ainda não foram suficientemente provadas pela realidade.

Os insensatos afirmam que os maridos não se apropriam dela porque sabem que toda relação acabará como as anteriores: desfrutam das vantagens do casamento e partem quando lhes convém. Os descendentes acusam o marido actual, argumentando que é ele quem administra os bens da casa. Os vizinhos observam em silêncio, convencidos de que os conflitos daquela família não lhes dizem respeito. Mas os que se apresentam como amigos da viúva são, muitas vezes, os que mais lucram com a sua fragilidade. Aproximam-se com palavras de solidariedade, enquanto recolhem discretamente os frutos da desunião. Os religiosos continuam a erguer a voz, procurando despertar nos filhos da viúva a consciência de que nenhum património é mais valioso do que a fraternidade.

Recordam os ensinamentos dos Evangelhos de Mateus e Lucas, nos quais o amor ao próximo se apresenta não como um simples conselho, mas como um dever capaz de restaurar a dignidade humana. Os filósofos, por sua vez, recordam que nenhuma teoria que semeie a separação entre semelhantes pode conduzir a uma sociedade verdadeiramente justa. Toda a ideologia que transforma irmãos em adversários afasta-se da verdade, da liberdade e da própria condição humana. Os historiadores evocam as palavras de Nelson Mandela: ‘Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da sua pele, pela sua origem ou pela sua religião. As pessoas aprendem a odiar; e, se podem aprender a odiar, também podem aprender a amar.’

Apesar de tantas advertências, a viúva permanece à espera. À espera de um marido que compreenda que governar não é possuir, mas servir. À espera de filhos que descubram que nenhuma diferença política, regional, étnica ou religiosa é suficientemente grande para apagar a marca do mesmo ventre que lhes deu origem. À espera de amigos que deixem de explorar as suas fragilidades e passem a respeitar a sua soberania.

Porque a maior pobreza da viúva nunca foi a falta de riquezas. A sua verdadeira pobreza sempre foi a escassez de um amor suficientemente grande para proteger tudo quanto possui. No dia em que marido e filhos compreenderem que pertencem uns aos outros antes de pertencerem a si mesmos, a viúva deixará de ser apenas rica e bela.

Nesse dia, finalmente terá encontrado o que procurou durante toda a sua existência: um verdadeiro lar.