“VENHO DA MEMÓRIA DOS CORPOS QUE ME ANTECEDERAM E CONTINUO A DANÇAR PARA DESCOBRIR AQUILO QUE ESSES CORPOS AINDA TÊM PARA ME DIZER” – Freitas Nuvunga

Freitas Nuvunga

Há artistas que dançam para serem vistos. Outros dançam para compreender. Freitas Nuvunga parece pertencer à segunda estacão: aquele onde o corpo deixa de ser apenas movimento e passa a ser memória, investigação, identidade e pergunta.

Para ele, a arte não está separada da vida; é justamente o resultado das experiências, dos lugares, das pessoas e das culturas que atravessam a sua existência. A dança, entrou cedo no seu corpo. Ainda criança, na Beira, onde nascera, observava os grupos de Djekedje, a Claque do Ferroviário da Beira, os espectáculos de Thazi e, sobretudo, as festas familiares. Dentro de casa, havia também uma referência muito próxima: a mãe, que dançava e muitas vezes assumia o papel de bailarina principal nas festas da família.

A formação em Dança no ISArC viria depois dar nome, método e pensamento àquilo que já existia dentro dele. Foi ali que começou a transformar experiências práticas em conhecimento e a aproximar prática, investigação e criação. A sua investigação sobre o desenvolvimento da dança tradicional Nyakapine, na cidade da Beira, entre 2012 e 2018, aprofundou uma certeza que continua a acompanhar o seu trabalho: uma dança tradicional não é apenas um conjunto de movimentos. Ela carrega história, memória, identidade, relações sociais e formas de conhecimento.

Ao longo do seu percurso, encontrou mestres, professores, artistas e comunidades que se tornaram parte da sua formação. Mapepe, Horácio Pavumbo, Francisco Jorge, Anacleto, Adalberto, Horácio Macuácua, Pak Ndjamena, Idio Chichava e Osvaldo Passirivo estão entre as referências que marcaram diferentes momentos da sua caminhada. Mas Freitas faz questão de ampliar a ideia de mestre: as comunidades, as danças tradicionais, a família e as próprias experiências de vida também ensinam.

Nem sempre o caminho foi simples. Construir uma trajectória artística num contexto de limitações de financiamento, espaços de ensaio e apresentação, formação, circulação e profissionalização exigiu persistência. Houve também o desafio de sair de um contexto comunitário e tradicional, chegar à Maputo e encontrar a dança contemporânea sem perder as próprias raízes. Foi nesse confronto que descobriu que não precisava escolher entre tradição e contemporaneidade. Podia, pelo contrário, investigar justamente o espaço de diálogo entre as duas.

É dessa curiosidade que nasce também o investigador. Freitas começou a perceber que cada dança carrega uma história e que cada movimento pode narrar alguma coisa. A pergunta sobre aquilo que existe por detrás do movimento tornou-se parte do seu processo criativo. Uma memória, uma experiência, uma conversa, uma prática cultural ou uma situação observada na sociedade podem transformar-se em ponto de partida. Muitas vezes, tudo começa com uma pergunta; depois, a investigação entra no corpo e transforma-se em movimento, música, palavra, imagem ou dramaturgia.

É também por isso que Freitas não procura entregar respostas fechadas ao público. O que lhe interessa é criar experiências nas quais cada espectador possa reconhecer algo de si, da sua comunidade ou da realidade que o rodeia. Se uma obra conseguir provocar uma pergunta, uma memória ou uma sensação que continue depois do espectáculo, para ele já existe comunicação.

Em “Um Dia em Moz”, a cidade transforma-se em corpo. A obra nasce da observação da vida urbana moçambicana e encontra no cobrador de chapa uma das suas figuras de inspiração testemunha e narrador do movimento da cidade. Do amanhecer ao anoitecer, a performance percorre experiências individuais que se transformam em memória colectiva, cruzando dança contemporânea, poesia falada, luz, som e projecção. Ali estão o peso do trabalho, a violência e a corrupção, mas também a fé, a solidariedade, a esperança e os sonhos que permanecem. Na obra, Freitas não queria simplesmente representar a realidade urbana. Queria transformá-la numa experiência capaz de despertar empatia, consciência crítica e sentido de pertença.

A multidisciplinaridade nasce dessa própria necessidade. Uma cidade não é feita apenas de movimento. É som, palavra, imagem, luz, pessoas, conflitos e relações. Por isso, a obra precisava de uma linguagem capaz de reunir todas essas camadas.

Depois veio “O Sorriso do Corvo”, uma obra que mergulha nas relações humanas, nas aparências e nas identidades que construímos diante dos outros. O corvo surge como um paradoxo simbólico, aberto a diferentes interpretações mitológicas, sociais, religiosas, metafóricas ou estéticas. O sorriso acrescenta uma outra camada de contradição: aquilo que parece familiar ou positivo pode esconder outras realidades.

Entre uma obra e outra, mudou também a posição de Freitas dentro do processo criativo. Em “Um Dia em Moz”, era líder, director artístico, co-criador e performer. Em “O Sorriso do Corvo”, tornou-se inteiramente criador e coreógrafo, sem estar em cena. Essa distância permitiu-lhe observar de outra maneira os corpos, a dramaturgia, a composição e o desenvolvimento do conteúdo. Mas nesse percurso, também nasce “Corpo de Vadjimu”, que coabita a memória, o corpo e ancestralidade de forma particularmente profunda.

Para Freitas, preservar uma cultura não significa congelá-la no passado. Significa permitir que continue a ser praticada, questionada e recriada pelas novas gerações. A arte torna-se, assim, espaço de memória e transmissão, mas também de transformação. É nesse território que encontra uma das grandes oportunidades para os jovens criadores moçambicanos: a própria diversidade cultural do país. Histórias, práticas corporais, músicas, línguas e conhecimentos podem alimentar novas criações. Não é necessário abandonar as referências de origem para ser contemporâneo.

Hoje, a caminhada continua para além das fronteiras. Na Alemanha, Freitas realiza uma formação intensiva na TanzFabrik, ligada à coreografia e à dança contemporânea. No horizonte estão também uma residência artística prevista para Novembro, em Espanha, e uma proposta para integrar um festival em Itália como coreógrafo. Ao mesmo tempo, permanece a investigação sobre corpo, memória, ancestralidade, tradição e contemporaneidade, com o país guardião do cordão umbilical sempre em mente, onde aconselha mais empenho, criação e curiosidade aos mais jovens.

E talvez seja justamente aí que Freitas Nuvunga encontre a melhor definição para a sua caminhada. Não na quantidade de espectáculos, nem nos palcos atravessados, mas na relação entre o corpo e aquilo que veio antes dele.

“Venho da memória dos corpos que me antecederam e continuo a dançar para descobrir aquilo que esses corpos ainda têm para me dizer.”

Texto d’Ana André Mitawa.