Majune: Um Destino Além da Viagem

Majune: Um Destino Além da Viagem

Por Celestino Tomás e Manuel Vene

Há destinos no mundo que encantam não só pela beleza cênica, mas também pela riqueza em detalhes e poder interpretativo dos factos históricos que singularizam o local e conferem ao viajante uma oportunidade imersiva de confrontar perspectivas diferentes. Majune, a sensivelmente 135 km, à sudeste da Cidade de Lichinga, na Província do Niassa à Norte de Moçambique, é um desses destinos incomuns que preservou traços indenitários únicos, com forte carga de significância, eventualmente, nunca antes vivenciada em outros lugares.

No centro da experiência de viagem à Majune, está a história da rainha, localmente conhecida por Bibi Achivaanjila, fundadora de uma dinastia de liderança feminina que subsiste a mais de dois séculos. Segundo consta de inúmeras fontes escritas, a generosidade dessa mulher fê-la transitar de escrava a rainha, pelo que continua sendo venerada como símbolo da resistência a dominação colonial portuguesa e a memória colectiva local teima em desfazer-se dela e dos seus feitos.

O elevado nível de humanismo e hospitalidade demostrado pela rainha durante o reinado de Mataaka I, Ce-Nyambi, é profundamente descrito por Zimba (2015) que relata sobre as rotas da Rainha Achivaanjila no contexto do gênero e da resistência à escravatura à Norte de Moçambique e também consta dos escritos de Vene (2018), cujo teor aparenta ter esgotado o conteúdo sobre a liderança feminina na África e no Mundo.

Nos escritos de Vene (2018), mora o sentimento de se ter alcançado “um ponto perdido neste país, onde a distância não se mede em quilometragem” (in Jornal Ngani, 13.04.2026), nem na história que reside nos detalhes, mas nos detalhes que guardam valores, vezes omissos e quase indissociáveis a tradição local. 

A simples passagem pela campa da Bibi Achivaanjila, situada nas proximidades da estrada que leva os visitantes a Reserva Especial do Niassa, emite sinais inconfundíveis que exaltam o local como parte das referências incontornáveis no panorama turístico nacional e, concomitantemente, desperta curiosidade a todos que se fazem no percurso pela primeira vez. “Durante a passagem ao local, os automobilistas reduzem a velocidade, desligam o sistema sonoro e os passageiros tiram chapéus” (Vene, 2018), cumprindo escrupulosamente as obrigações, ao passo que os curiosos, com interesse específico e que desejam venerar no local, acessam-no em troco nú, pé descalço e cumprem o simbolismo assente em ofertas, deixando moedas na lateral junto a campa.

Os relatos sobre o incumprimento dessas regras de conduta, antigas mas vezes ignoradas, apontam para possíveis incidentes que continuam intimidando os transeuntes, entre cenários misteriosos de avarias de veículos, desaparecimento de malas ou pastas de viagem e até surgimento espontâneo de obstáculos na via, com ênfase para animais selvagens. Aos íntegros, aqueles que observam tais regras, colhem resultados surpreendentes, a semelhança dos nativos que se fazem ao local mediante a fé e emitem pedidos, cujos relatos revelam que a prevalência dos resultados no beneficiário, ocorre mediante a honra ao compromisso de um dia voltar e agradecer a família da rainha.

A Rainha Achivaanjila é testemunha de um povo, de épocas distintas e continua marcando a vida, quer de nativos, quer de visitantes e seu maior valor, não se limita na viagem que impressiona e toca a alma daqueles que buscam um dia de lazer longe da agitação urbana, mas também nos que procura pela cura baseada na medicina tradicional. Pois, a rainha consagrou-se famosa no uso da medicina tradicional para enfraquecer a força inimiga e criar a harmonia no seio da população sob sua alçada, livrando-a de doenças, pragas e demais calamidades e é nisso que o destino Majune continua famoso e cada vez mais apetecível, criativo e memorável.

Majune é, sim, um destino que inspira, uma lição que reacende a força interior e oferece uma viagem completa quando, essencialmente, se visita o povoado fundado pela rainha e a casa da actual Bibi Achivaanjila VI, sita no povoado de Malila e, sob sua companhia, segue-se a campa onde jazem os restos mortais da Bibi Achivaanjila I. Este roteiro faz perceber quão vale um destino que combina o potencial natural com atributos culturais para oferecer uma viagem turística a altura, o que faz de Majune cada vez mais aconchegante e destino de escala obrigatória para quem alcança a Província do Niassa.