365 ARCOS ÍRIS DE EMOÇÕES
Hoje são 365 dias de céu laranja e verde. Entre eles, houve dias em que os trovões não tocaram, os tambores não roncaram. Mas, em todos eles, seja de baixo de chuva ou num cacimbo fumegante, nós estivemos no bairro, sugamos até a última palavra do nosso vocabulário para cravar intimidade com os nossos. Não medimos esforços, mergulhamos em águas para muitos turvas. Bebemos dos esgotos das artes, não em busca de matérias, mas sim de estórias de vida que inspiram nossa gente. Não veiculamos notícias. Guardamos memórias. Em cada pedaço do papel, fizemos de estórias, arte. Inspiramos e forjamos apego. Com paixão, fizemos de memórias alheias, nossas.
O nosso tapete não é vermelho. É uma passarela de arco-íris, feito de todos idiomas. Nossos modelos não se medem pela altura, tamanho da cintura, etiquetas ou endereços. Falam todos idiomas das artes e sem excepção, valorizam actos sem rótulos nas prateleiras de informação.
Não só escrevemos, dactilografamos. Não só captamos, revelamos. Não só mergulhamos, bebemos da mesma cabaça. O nosso flash ilumina todos rostos. Regista momentos.
E nos dias que acordamos com vontade de deitar tudo pelo alto. Abandonar a causa. Chamar motivos que em nada condizem sobre o artesão. Que pouco servem ao oleiro, coveiro ou ambulante de estórias. Que nada falam da vendedora do tomate. Um estrondo cai sobre nós e nos lembra: “as páginas da Upile carregam mais do que simples letras e cores; são além de rostos que exibimos. São a memória e a esperança do povo”.
Apagar essas memórias, seria deixar à própria sorte, gente que ousou acreditar quando Upile nem era nome. A nostalgia e alegria da mãe que nos celebra, sempre que nos vê no mercado. Os coros da rapaziada, sempre que escuta o nosso hino no bairro. Seria negar o abraço do grupo cultural, do escritor, da voz que tem nas nossas páginas, a rádio para difundir sua arte.
Que nada nos faça deitar a toalha pelo chão, ainda que mergulhada num mar de suor. Nem mesmo as promessas vazias, dos ditos por não ditos; nem o ego dos autores assíduos nas nossas edições, cujos versos, estrofes e contos conhecem moradia nas nossas páginas, mas o dedo ainda lhes pesa para clicar em “seguir”, continuaremos pelos seus e nossos leitores, inclusive pelos que não conhecem o ABC do abecedário.
Por cada um deles, celebramos um ano. 365 dias de luta. De sono interrompido por uma chamada tardia. De sms que nos convoca. De um berro que nos alerta que a cerimónia ainda não começou por não termos chegados. Por cada convite que nos chega como intimação.
Continuaremos na falta de crença. Avançaremos, na dúvida. Pedalaremos até não haver braços para fazer de pernas. Quando a internet falhar, os megas faltarem, a câmera quebrar ou o arco-íris não colorir às páginas, invadiremos as ruas, os bairros, os povoados, cantaremos UPILE até não haver mais coro no unhago ou em qualquer festival da cultura.
Seguiremos firmes, do verso iremos nos hidratar. Da composição, nutriremos nossa fome. Pela percussão, daremos vida. Da palavra, nutriremos 365 almas infinitas, porque convosco, nunca estamos só.
Geraldina Paia Gueze















Leave a Reply