Das Batatas ao Pequeno Luxo

Das margens do rio Ngame, em plena EN13, fogões e brasas de fogo incendeiam óleo que se contorce num calor escaldante. Na fuga pelo calor, estômagos vazios e despidos de preconceitos rotam temperos e falam de boca cheia de estórias que orgulham a partir de Mandimba.

Valdemiro Caetano Alberto, “Valdo” para os paladares ambulantes ou passageiros na paragem de Cuamba, em Mandimba. Jovem sonhador, que descobriu vida na batata. Nascido e residente em Mandimba, despiu-se do BR que nunca germina uma oportunidade e a cada ano cresce raízes em gavetas entulhadas de papéis e adia a chamada para a vaga de que tanto sonhou.

Enquanto a espera dura, Valdo fez dela um ponto de encontro e serve no seu marrague, para todos gostos. De uma esquina de batata frita, salada de repolho e pedaços “canhenha” de frango, construiu um lar para quem a distancia o separa da casa. Nesse tempo, separa-se também dos pais, adopta uma vida própria e amplia seu horizonte, suas contas e sonhos.

Na sua aventura, Valdo, começou fritando batata rena, salada de repolho e pedaços “canhenha” de frango em 2018. Da sua esquina, sai o lanche para os gabinetes. Aquele negócio da rua, hoje pariu e alimenta gente de terno e gravata. Cresceu, ganhou barba e respira ar fresco nos refrigerantes, e conheceu sotaques e paladares sofisticados pelo mayonnaise ou tomate souce.

Sem exigir muito do BR com a barba já rija, conta com 3 colaboradores que igual a si, sonham viver sem depender de nenhum despacho de pedaço de papel.

O jovem empreendedor, fala de um trabalho árduo e de uma mudança drástica na vida, mas com contas pagas, tecto para família e uma memória de miséria que habita no passado. Condignamente, dorme, come, circula e presta serviços de deliver aos seus clientes, como nunca sonhou antes.

“Consigo fazer entregas de encomendas ou levantar produtos em Malawi com a minha motorizada.”

Uma referência nas instituições públicas da vila de Mandimba, o que lhe deixa mais feliz e satisfeito porque em nenhum momento já recebeu reclamações vindo dos clientes de má qualidade dos seus serviços. Valdo, encoraja os jovens na busca de soluções locais para contrariar a fraco poder de compra e a vida de dependência que a maioria leva.

“O orgulho não paga as contas. Enquanto muitos esperam pelo emprego no Estado, vivem de aparências e acabam frustrados, por isso, eu decidi apostar neste negócio, e hoje, tenho sustento, casa condigna e transporte para minha família.”

Texto: Artimisa J. Tivane Mucavele