O Espelho Partido do 7 de Abril

Na manhã de 8 de Abril, o sol nasceu sem pressa sobre a Praça dos Heróis. As capulanas coloridas que no dia anterior teciam um mosaico vivo agora jaziam esquecidas em alguns bancos, manchadas de vinho e terra. O vento varria copos de plástico, guardanapos amassados e, aqui e ali, uma sandália perdida rasto de uma celebração que se queria memória e se fez, para muitos, apenas festa.

Os taxistas, esses cronistas da madrugada, não perderam a ocasião. Rodavam pela cidade com farol alto, apanhando grupos de mulheres que cambaleavam de braços dados, rindo alto ou chorando baixo. “Levei uma senhora de capulana amarela até à Matola”, contou um deles, sacudindo a cinza do cigarro. “Mal conseguia dizer o bairro. O batom estava borrado, o cabelo desmanchado. Só repetia: ‘Foi lindo, foi lindo.’ Eu perguntei o que foi lindo. Ela fechou os olhos e dormiu.”

Nos bares da periferia, os copos ainda estavam sobre as mesas, alguns com restos de cerveja quente. As empregadas recolhiam garrafas partidas tantas garrafas partidas como se cada mulher ali tivesse estilhaçada um pouco de si mesma. As árvores próximas, essas testemunhas mudas, guardavam nos troncos o cheiro acre do que não devia ser urinado em público. Uma senhora de idade, que passava com uma bacia de roupa na cabeça, murmurou: “É assim todo 7 de Abril. Elas saem para se libertar e voltam nas presas do que nunca. Presas da bebida, presas da opinião alheia, presas do que vão dizer no bairro.”

Ela tinha razão, essa senhora. No dia seguinte, os comentários fervilhavam nas filas do pão e nas paragens de taximota. “Vi a esposa do Zé a dançar em cima do balcão.” “A filha da Dona Albertina só voltou para casa às cinco, e o marido esperou acordado.” “Aquilo não é empoderamento, é desnorteamento.” Os homens cruzavam os braços, sentenciosos. Algumas mulheres baixavam os olhos. Outras revidavam: “E vocês, que fizeram no dia 7? Ficaram no sofá a beber sozinhos?”

No meio desse rescaldo, uma imagem ficou. Era uma jovem sentada no meio-fio, a capulana suja, os óculos escuros pendurados num lado só. Ela chorava, mas não de tristeza chorava de cansaço, de confusão, de não saber se o que viveu na véspera era liberdade ou armadilha. Ao lado dela, uma amiga tentava consolá-la: “Não ligues, mana. Foi só um dia. Amanhã ninguém se lembra.” Mas a jovem balançou a cabeça: “Eu vou lembrar. Eu vou lembrar que me embebedei para me sentir forte. E agora estou aqui, vomitando num esgoto, e chamam a isto celebrar as mulheres.”

O espelho do 7 de Abril partiu-se, nesse ano, em muitos fragmentos. Cada fragmento reflectia uma verdade: a alegria genuína de algumas, a encenação vazia de outras, a bebedeira como substituto da situação de desabafo intenso, uma experiência transformadora que traz alívio emocional profundo, o bar como palco improvisado de uma luta que se quer íntima, doméstica, quotidiana. E os homens, esses, ora apontavam o dedo, ora lucravam com o caos taxistas a dobrar corridas, donos de bar a triplicar preços, maridos a esperar em casa com uma bronca ensaiada.

Ao cair da tarde de 8 de Abril, uma mulher de capulana azul varria a entrada do seu quintal. Ela não tinha ido à praça. Preferiu ficar, preparar matapa para os filhos, conversar com a vizinha sobre a vida que não cabe num só dia. Quando um repórter de ocasião lhe perguntou o que achava do rescaldo, ela respondeu, pausada:

— O 7 de Abril não devia ser um dia para as mulheres se esquecerem de si mesmas. Devia ser um dia para se lembrarem do que são todos os outros. A nossa força não está no copo, nem na dança até cair. Está em acordar cedo, lavar a roupa, levar os filhos à escola, enfrentar o chefe que nos assedia, dizer não ao marido que nos bate. Isso não dá selfie, aquele autorretrato fotográfico tirado pela própria dona do smartphone e compartilhado em redes sociais.Nada disso, mas dá dignidade.

Guardou a vassoura, olhou o céu que escurecia, e concluiu:

— O espelho partido ainda pode ser colado. Mas primeiro é preciso reconhecer os cacos. E parar de chamar liberdade a tudo o que nos faz sangrar.

Do outro lado da cidade, numa varanda vazio, um velho que tudo vira na véspera acendeu uma lanterna recarregável a energia . Escreveu num caderno: “Elas dançaram sobre os seus próprios limites. Algumas caíram. Outras aprenderam a cair com menos estrondo. O 7 de Abril passa. O que fica é o dia 8 a ressaca, o olhar do vizinho, a garrafa partida que ninguém varre. E a pergunta que ninguém responde: afinal, quem ganha com esta festa?”

Guardou a caneta. E apagou a luz.

𝐃𝐚𝐧𝐢𝐞𝐥 𝐀𝐧𝐭ô𝐧𝐢𝐨 𝐌𝐚𝐫𝐜𝐨𝐬