“HÁ VIVOS ARREPENDIDOS REVISTOS EM “FLORES DO MEU FUNERAL?”
Um reparo á nova música do cantor Rei Bravo
Cê – Ndogo
Somos inquilinos da mesma aldeia, o que nos separa são ruelas acastanhadas de Civawula. Frequentemente encontramo-nos em funerais e sadakas. O rapper é muito ocupado. A Orquídea também anda atarefada. São putos com astúcia e com mangas arregaçadas a labuta. Este é o conceito de Rei Bravo – meu vizinho, filho do meu companheiro de clube de futebol. Na última vez vimo-nos nas bancas do mercado Civawula. Eu comprava saramaka e ele carregava uma sacola contendo pães. Tudo que comprávamos era para o pequeno-almoço do dia seguinte. Ali adivinha-se a diferença entre nós.
No funeral de um vizinho, onde RB esteve, ouvi que, em uma viagem que os músicos fizeram à Mandimba para uma actuação, Rei Bravo efectuara um telefonema consultando se o caixão que terá encomendado estava pronto. Perguntara se respeitaram escrupulosamente as medidas que lhe – foi tirado no dia da encomenda. Outros músicos que seguiam naquela viatura, assustaram e questionaram ao RB se de facto encomendara um caixão na carpintaria ou se era uma ironia referindo-se de uma gaja á mira. Esses putos fazem isso – se não sabiam minhas irmãs. Dizem que ele confirmou diante dos colegas que na verdade encomendara um caixão para exibi-lo em vídeo da sua música. Mas nunca os colegas imaginaram que ele seria o utente da tal gaveta mortal. Certamente que ninguém queria acreditar. Lá se foi a conversa.
O dia “D” chegou e o vídeo saiu. Vi meu vizinho no caixão. Pena não ter participado no embalsamar do corpo, talvez aguardasse pela última homenagem, mas, os manos mais próximos do RB segredaram-me essa notícia. Nem no grupo dos músicos, muito menos entre as nossas damas de Civawula ouviu-se alguma notícia sobre o Rei Bravo. Até o tio Santos escondeu isso. Como se evitasse enchente na sadaka do terceiro dia.
“SERÁ, O REI BRAVO, UM MAL – CRIADO PERANTE OS MORTOS?”
Há muito muito tempo, antes da ida aos ritos de iniciação, diziam os anciãos que era proibido assistir um cortejo fúnebre, porque causava cegueira. As mulheres não deviam seguir ao tratamento do corpo de malogrados. Crescemos obedecendo essas narrativas que visavam preservar o respeito e a dignidade dos nossos entes. Até não se revelava a causa da morte. Na actualidade, a frenética canção “lowa, lowa abale yanga” comove gentes a observarem o cortejo. Até putos se aproximam da procissão, como se a curiosidade fosse ver quem faleceu para marcar na agenda o dia da sadaka na família do finado. Infelizmente!
Se o fundamento em “Flores do meu funeral”, for uma crítica social aos comportamentos que incomodam aos mortos e enfurecem aos familiares, diria que Rei Bravo surge, nessa encenação, como um activista que repudia a indecência que se verifica no tratamento aos mortos, sobretudo nessa sociedade em que o respeito a vida humana foi escancarado, bebemos e namoramos em cemitérios. RB se impõe tentando revelar segredos íntimos dos mortos, desde o banho, o embalsamar, a vestimenta, a submissão ao caixão e a última homenagem. Como se dissesse: ele não vai ao passeio. Vai e nunca voltará. Daí a necessidade de máximo respeito. Nesse lado da cassete, digo: BRAVO, Rei Bravo!
Mó Nigga!
Faltar com o respeito aos mortos é o extremo da indecência humana. Desvendar os mortos é crucificá-los novamente. Escamotear últimos segredos de um indivíduo na terra, é ressuscitá-lo espiritualmente e matar aos vivos. É remeter os seus familiares a um arrependimento pela vida. Envergonhá-los da vida, condená-los eternamente enquanto sobreviverem. Nesse lado da cassete, digo: MAU, Rei Bravo!
Não sou digno de julgar a um humano igual a mim, sobretudo artista como eu. Lembro-me em VOZES MALOGRADAS ter dito em poesia a minha última homenagem. Despedi-me de todos, sobretudo delas. Daí, a minha neutralidade sobre esse assunto. Mas, há mais lições advindas da encenação do Rei Bravo: solidariedade, amor ao próximo, empatia, humildade e necessária preparação de cada um, cientes de que A MORTE NÃO AVISA. Que fique claro que enterrar os mortos é bíblico.
Gostei nesse vídeo a união entre os artistas. Vi a velha e a nova geração a venerando o colega, o que não é fácil nos dias de hoje. Dias de orgulho, ira, ódio, vingança, arrogância, inveja, ignorância, ego e demagogia. A isto sempre suplicamos. Parece orientação de deuses dos sobreviventes ou DOS VIVOS ARREPENDIDOS REVISTOS EM FLORES DO MEU FUNERAL.











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