Mulheres Invisíveis: a Luta Silenciosa da Mulher em Mecanhelas

Entre a celebração e a sobrevivência, a cada amanhecer as mulheres de Mecanhelas fazem a sua escolha. Deixam de lado as mesmices da vida e mergulham no rio Muchimazi, onde a cada mergulho, extraem a esperança, sonhos e a areia que alimenta os seus filhos.

Para essas mulheres, o dia começa no rio e se estende sob suas influências em forma de sustento. Até quando o país parou para celebrar o Dia da Mulher Moçambicana, no distrito de Mecanhelas, na Província de Niassa, a rotina teimosamente continuou a mesma. Sem palcos para celebrações, nem discursos ou aplausos, longe dos holofotes, emergem na água e convivem com esforço e urgência.


Na busca pelo sustento, nem no sol habita a memória do dia em que nascera antes das suas caminhadas em direcção ao rio Muchimazi. Carregadas de baldes, enxadas, pás, nenhum peso supera a responsabilidade de sustentar as suas famílias.

Entre a Dignidade e a Necessidade, a extracção de areia é, para muitas destas mulheres, mais do que uma actividade económica: é uma questão de sobrevivência. Cada balde cheio representa uma possibilidade de colocar comida na mesa, segundo conta Ana Francisco.

“No rio encontrei o sustento”

Entre desafios e coragem, Ana Francisco, transforma a extracção de areia na única esperança para alimentar os filhos. A dona Ana Francisco, vive no distrito de Mecanhelas. Sua face, revela uma vida de luta, onde o sustento diário é motivo de celebração. Para ela, nenhum dia 7 supera o seu quotidiano, que exige dela muita entrega e poucas distracções.

“No dia 07 de Abril, enquanto outras mulheres se dirigiam à Praça dos Heróis para comemorar o Dia da Mulher Moçambicana, eu seguia um caminho diferente —o do rio Muchimazi.”


Ana Francisco fala de uma trajectória difícil, mas necessária. Na companhia de tantas outras mulheres, conhece o comportamento do sol muito antes de sequer nascer. A dura batalha de enfrentar a água fria, tornou-se um acto normal. As dificuldades no início da jornada morram na memória de um passado que exigiu dela mais do que coragem, pão para os filhos

Para heroína invisível de um lar cujas estatísticas pouco revelam, o mergulho no rio mostrou-se necessário, sobretudo quando o sustento não tinha género masculino.

“A areia é pesada, mas também é esperança. Com esse trabalho, consigo algum dinheiro para comprar comida, cadernos e cuidar da casa.”

Mulher de muitas lutas e poucas palavras, fala carregada de nostalgia e esperança de ver os filhos longe do rio.


“Não é fácil. Ficamos muitas horas na água, sob sol forte. Mas não posso parar.    Gostaria de celebrar este dia como outras mulheres, mas a minha realidade é diferente. Aqui no rio, não há discursos. Há trabalho. E enquanto não surgirem melhores oportunidades, é aqui que continuo — a lutar pela minha família.

Esta estória, revela-nos a outra face que tende de ser enfeitada. Igual Ana, há tantas outras que desempenham um papel fundamental na economia local. Em Mecanhelas, a areia extraída é vendida para construção, tornando-se uma fonte essencial de rendimento. A actividade é exigente e arriscada. Longas horas dentro de água, exposição ao sol intenso e esforço físico constante colocam em causa a saúde destas mulheres.

Enquanto se exaltam conquistas pelo país, estórias como esta, levanta questões profundas sobre desigualdade e sobrevivência para algumas mulheres daquela região da província do Niassa, porém, mais do que homenagens simbólicas, estas mulheres esperam por mudanças concretas: Emprego Digno, Melhores Condições de Vida e Políticas Inclusivas.

Gervásio Nhapulo