Pavês que Não Duram

DEVANEIOS

Pavês que Não Duram

Por Daniel António Marcos

O Senhor Diquissone deteve-se no meio do passeio, como quem espera que o chão lhe devolva uma resposta. Mas o chão, esse, já não devolvia nada, apenas se entregava, peça por peça, ao esquecimento dos dias.

— Onde estão os vereadores? — Perguntou em voz alta, para ninguém em particular. — Onde estão os policiais municipais?

Ninguém respondeu. Apenas o vento, que trazia o cheiro das badjias fritas vindas da praça, e o rumor distante de uma viatura que, ao tocar o lancil, arrancou mais um pedaço do pavimento. O pavê soltou-se como um dente de leite, e ali ficou, virado, expondo a terra nua por baixo.

O Senhor Diquissone conhecia aquela cidade melhor do que os próprios planos de urbanização. Sabia que, em menos de três anos, os bancos públicos se tornariam escombros de betão partido, ali na praça pública. Sabia que as praças, tão bonitas nos projectos, se transformariam em campos de batalha onde a relva vencia uma vontade de realizar algo humano.

E ali estava ele, testemunha de um paradoxo: enquanto uns construíam, outros desorganizam, retiravam sinalizações, iluminação, torneiras do jardim. Mas a culpa, pensava, não era apenas dos vândalos. A culpa era da própria obra, mal feita desde o princípio, como uma promessa que já nasce vazia.

— Pavimentos fáceis de vandalizar — Murmurou, observando a curva onde os pneus dos carros faziam estragos. — Basta tocar, e tudo se desfaz.

Na praça central, as mães de semblantes cansados vendiam seus bolinhos. Dona Albertina, que ali estava há mais de sete anos, via os bancos serem restaurados e destruídos com a mesma frequência com que o sol de Lichinga se alternava com a chuva fria.

— Este banco novo? — disse ela, apontando com o queixo. — Daqui a três meses já não tem pernas.

Era verdade. A base de betão, malcurada, já apresentava fissuras. Os varões, desproporcionais com o banco, sobressaíram sobre o betão cheio de areia, enferrujavam antes do tempo. E os munícipes, cansados de esperar por melhorias, usavam os espaços públicos como quem usa uma casa que não é sua — Sem cuidado, sem afecto.

O Senhor Diquissone cruzou a rotunda. Ali, onde devia haver um caminho digno, os peões já haviam aberto uma trilha na relva. O corta-mato era a resposta silenciosa à falta de discernimento.

— Onde estão os vereadores ligados à manutenção? — Repetiu, agora com mais angústia.

Lembrava-se de quando, há cinco anos, se inaugurara aquela praça com pompa e circunstância. As autoridades sorriam nas fotografias. Os discursos prometiam desenvolvimento. E agora, ali estava ele, vendo os escombros dos bancos, os pavimentos desfeitos, a relva morrendo onde devia haver ordem.

Era uma cidade de contrastes, Lichinga.

Contraste social: de um lado, as mansões dos bairros ricos; do outro, as casas de capim onde a chuva entrava como visita indesejada.

Contraste natural: o sol forte de manhã, que queimava a pele, e a chuva rápida da tarde, que gelava os ossos.

Contraste emocional: a alegria das crianças a brincar entre os escombros, misturada com a preocupação de quem sabia que aquela desorganização não era acaso, mas sintoma.

— O munícipe também pode zelar — Disse o Senhor Diquissone, agora para um grupo de jovens que passava. — Não deixemos a cidade desmoronar quando há um esforço de sua progressão.

Os jovens olharam-no com indiferença. Um deles, com um pé, empurrou um pavê solto, que rolou até ao meio da estrada.

— É só um pavê, Senhor — disse o rapaz.

— Não é só um pavê — Respondeu o velho, com a voz carregada de anos e de cansaço. — É a cidade inteira que se desfaz, pedaço por pedaço.

E enquanto o sol de Lichinga se punha, pintando o céu de laranja e cinza, o Senhor Diquissone ficou ali, de pé, como uma sentinela solitária. Olhou para os escombros, para os bancos partidos, para os caminhos de terra que a relva tentava esconder.

E perguntou-se, em silêncio:

— Será que um dia alguém vai ouvir?

A cidade não respondeu. Apenas o vento, que trouxe o cheiro das badjias e o rumor distante de mais um pavê a soltar-se.

Lichinga, 2026