MACHONGUEZI MUHAMMADI MUBAY: O Kota do Violinho Por Ângelo Madrugas

Por Ângelo Madrugas

Havia em Lichinga, um homem cujo silêncio aos olhos escondia um universo de som. Chamavam‑no Machonguezi Muhammadi Mubay. A cegueira tirou‑lhe a vista, mas deixou‑lhe mãos que viam como ninguém: mãos capazes de transformar pedaços de madeira e arame num violinho que cantava como quem conta histórias antigas.

Naquela época, entre os anos 80 e 93, passeava pela feira e pelos becos com o seu instrumento ao peito. Muitos viam‑no só como um tocador humilde, uma presença menor na rotina do mercado. Mas quem parava para ouvir percebia que cada nota era uma lição disfarçada. As suas músicas não eram apenas sons; eram aulas de sapiência embaladas em melodias simples: conselhos sobre paciência, sobre perdão, sobre como o tempo molda as pessoas e não as apaga.

O violinho de Machonguezi tinha voz própria. Quando ele puxava o arco, a cidade parecia inclinar‑se para ouvir. As senhoras que passavam apressadas detinham o passo; os rapazes do bairro esqueciam por um instante a correria. Ele requintava as memórias do povo e devolvia‑as em canções que, hoje, soam como manuais ou hinos de vida.

Já não está entre nós, e isso dói como dói a última nota que se perde no ar. Mas a sua música, o seu legado, as estórias, ficam como tatuagens feitas na mocidade, mas perduram gerações. Ficam como escola. Cada melodia que ele deixou é uma frase ainda não dita e que ainda hoje, nos corrige: lembra‑nos de olhar com cuidado, de ouvir com respeito, de valorizar o toque artesanal que salva história do esquecimento.

Machonguezi era, e continuará a ser, o professor invisível de Lichinga: cego aos olhos do mundo, lúcido no que realmente importa. Que as suas cordas continuem a vibrar nas recordações e que os jovens aprendam, nas suas lições sonoras, a fazer música que ensine.