ARTE & VIDA
Cenas Moçambicanas: Quando um Olhar Estrangeiro nos Devolve a nossa Essência
Há fotografias que simplesmente registam um momento. Outras, porém, conseguem parar o tempo e obrigar-nos a olhar novamente para aquilo que julgávamos conhecer. É nesse território entre a emoção e a curiosidade que nasce “Cenas Moçambicanas – Registro Estrangeiro”, uma exposição do Prof. Manoel Santana, brasileiro, que encontrou em Moçambique não apenas um novo lugar para viver e ensinar, mas também uma oportunidade para reencontrar uma antiga paixão: a fotografia.
O primeiro contacto com Moçambique foi marcado, segundo o próprio, por uma mistura de “emoção e curiosidade”. Ao percorrer diferentes espaços, particularmente em Niassa, o que mais lhe chamou a atenção não foram apenas as paisagens, mas sobretudo as pessoas. O movimento das ruas, as mulheres caminhando com crianças nas costas, as bagagens carregadas sobre a cabeça e a presença quase indiscutível da capulana foram construindo, diante do seu olhar, um retracto vivo do quotidiano moçambicano.
É justamente esse quotidiano que ocupa o centro da exposição. Não se trata de procurar apenas imagens extraordinárias, mas de descobrir beleza e significado nas cenas que acontecem todos os dias. Para Manoel Santana, olhar Moçambique foi também aprender a reparar naquilo que muitas vezes passa despercebido aos próprios moçambicanos.
O próprio nome da exposição nasceu desse encontro cultural. “Cenas Moçambicanas – Registro Estrangeiro” resulta, nas palavras do fotógrafo, de um encontro entre línguas e gírias. A intenção era encontrar uma expressão que tivesse identidade e que permitisse aos moçambicanos reconhecerem-se no título, sentindo-se “em casa” diante da exposição. Afinal, embora o olhar seja estrangeiro, as histórias fotografadas pertencem ao lugar que o acolheu.

A fotografia, para Manoel, também representa um reencontro pessoal. Antes de chegar a Moçambique, já havia sido fotógrafo na juventude. A experiência de sair do Brasil e chegar a este país fez ressurgir uma parte da sua história que permanecia guardada. “Ter saído do Brasil para cá fez-me voltar à minha juventude”, revela. A câmera, assim, deixou de ser apenas um instrumento de registo e tornou-se uma espécie de ponte entre o passado e o presente.
Entre as imagens que compõem a exposição, algumas nasceram do simples encantamento diante de uma paisagem; outras carregam questões mais difíceis. É o caso da fotografia intitulada “Festa para quem?”, uma das imagens que mais o marcou. Nela, uma mulher aparece, em pleno Dia da Mulher Moçambicana, acompanhada pelas suas filhas enquanto trabalha.
A fotografia não foi difícil de fazer, explica Manoel. Difícil foi aquilo que ela revelou. “Elas não foram difíceis de fazer e sim de ver”, afirma, referindo-se às fotografias. Há uma espécie de silêncio naquela cena: enquanto o calendário celebra a mulher, outra mulher continua a trabalhar, acompanhada pelas próprias filhas. A imagem transforma-se, assim, numa pergunta que ultrapassa a fotografia e chega à sociedade: afinal, quem é celebrado quando tantas mulheres continuam invisíveis no peso das tarefas quotidianas?
Outra imagem que permanece na memória do fotógrafo é a das duas crianças caminhando. O que o marcou foi o olhar forte do menino, que transmite a sensação de estar a proteger a irmã. É uma cena simples, mas carregada de uma expressividade que não precisa de palavras. Talvez seja justamente essa capacidade de encontrar histórias dentro de pequenos gestos que define o olhar de Manoel Santana.
Mas Moçambique também lhe ofereceu familiaridades. Na comida, encontrou sabores que lhe despertaram proximidade, como a xima e o pão com badjia. No acolhimento, encontrou outro ponto de ligação. E, sobretudo, encontrou a riqueza de um país onde múltiplas línguas e dialectos convivem e dão diferentes vozes ao mesmo território.

Depois vieram as palavras. As expressões, as gírias e o modo particular de falar também ajudaram a desenhar esse novo mapa cultural. “Cena”, “aquele assunto” e outras expressões do quotidiano despertaram a sua atenção. O português moçambicano, observa, possui uma maneira própria de revelar e talvez também de esconder significados. E há ainda uma característica que, para ele, se manifesta no modo como as pessoas vivem: “o moçambicano vive sem pressa.”
No contacto com os estudantes, outro aspecto se destacou: a expressividade poética, a curiosidade e, principalmente, o respeito pelos professores. Para alguém que também exerce a docência, essa experiência ultrapassa a simples observação. É uma troca entre pessoas, culturas e formas diferentes de compreender o mundo.
No fundo, a exposição carrega duas intenções. A primeira é provocar orgulho nos moçambicanos por aquilo que são e por aquilo que carregam. A segunda é transformar cada fotografia numa espécie de agradecimento. A exposição é, também, segundo Manoel, “um muito obrigado pelo acolhimento e hospitalidade” que recebeu.
Por isso, talvez “Registro Estrangeiro” seja apenas uma parte da história. Porque, embora as fotografias tenham sido feitas por alguém que veio de fora, elas revelam pessoas, lugares, gestos e experiências que pertencem profundamente a Moçambique. O estrangeiro apenas emprestou o olhar para que os próprios moçambicanos pudessem voltar a ver-se.
E é justamente esse olhar que Manoel, recomenda a quem quiser fotografar outro lugar. Não basta visitar os cartões-postais. É preciso olhar para as pessoas, entrar nas ruas, aproximar-se dos lugares populares e de lazer, observar os locais de trabalho e, sobretudo, prestar atenção às cenas comuns. “É preciso olhar para as pessoas e praticar um olhar turístico”, defende.

Porque, muitas vezes, a verdadeira identidade de um povo não está nos grandes monumentos, nem nos acontecimentos extraordinários. Está numa mulher que caminha com uma criança às costas, numa capulana que acompanha os movimentos do dia, num menino que protege a irmã, numa conversa de rua, numa expressão que só os habitantes daquele lugar compreendem.
É aí que a fotografia deixa de ser apenas imagem. Torna-se memória, pergunta, encontro e agradecimento. E, através de um olhar estrangeiro, Moçambique acaba por ser devolvido aos próprios moçambicanos talvez um pouco mais bonito, mais complexo e mais digno de ser visto.
Texto d’Ana André Mitawa.












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