No Djando: Antes das Exéquias Fúnebres

COLUNA

No Djando

Antes das Exéquias Fúnebres

Por Luís Madaba

Geralmente são jovens com o básico para viver e/ou vindo de famílias humildes, que perdem somas de dinheiro em jogos de azar, vivem na ilusão que é possível ficar rico jogando o “aviator”…, em muitos casos, apostam com dinheiro que nem lhes pertence, não têm noção que as empresas de jogos electrónicos de azar – ficam ricas com a desgraça deles, não conhecem a armadilha que está nos algoritmos criados para fazer perder noventa e nove vezes, por exemplo, noventa e nove pessoas perdem e uma ganha, o número cem, na sua ignorância, depois que ganha, julga ter sorte, não sabe que ganhou depois da empresa tirar o seu lucro em outras noventa e nove apostas.

E sim, as empresas de jogos de azar são movidas pelo lucro, pouco se importam com a sua pobreza e/ou ganância de riqueza, não são caridosas como aparentam ser e – quem te garante que serás tu, o número cem, na próxima aposta?  

As mensagens de consternação ainda corriam pelo país, transportados pelos telemóveis, de lés a lés, o corpo ainda na morgue. Paz à sua alma, Entre o esplendor da luz perpétua…, entre outros dizeres, seguia a informação do desaparecimento físico do Papapopó.

Enquanto os planos de sepultura e outras necessidades para o enterro digno eram traçados, o plano que antecede o resto do programa da cerimónia fúnebre, a comida – para manter os familiares e amigos saudáveis e com energia de participar na última homenagem – já estava em marcha, um grupo de senhoras da comunidade, de porta em porta pedia apoio em mantimentos – farinha, lenha e outras necessidades da cozinha, o famoso “ntchango”, como culturalmente é prática aqui em Lichinga, nossas boas maneiras que nem a modernidade consegue apagar, ser solidário um do outro, quando o infortúnio se torna nosso inclino.

 – […] O finado, deixou muito dinheiro guardado no banco, era daqueles que aprendeu de forma exagerada o conceito de poupar para usar depois –, disse Jánfar em conversa fiada na companhia de outros jovens na barraca da esquina, próximo à residência do malogrado – diz-se por aí que ele poupava desde os 15 anos, e nunca mexeu o dinheiro, concluiu.

 – Pois é, nem se mimava, não tinha roupa decente, praticava adjumule nawale – esperar secar para vestir, assim que o cota bazou o tako – dinheiro dele será gasto por quem nem vai valorizar o seu sacrifício – interveio em risos zombeteiros, Malize, estimulado pela bebida alcoólica caseira – “Cacholima” feita a base de cana-de-açúcar – de minutos a minutos com o gole servido em um copito minúsculo de alumínio partilhado por todos os lábios ali presentes, aquecia o estomago, as tripas e outros órgãos internos durante o trajecto, agindo como se estivesse deixando escoriações, e, não só, como também, faz falar os mudos. 

– O Papapopó deixou-nos um legado, com a sua veia de poupador – mostrou aos jovens da nossa comunidade que é possível ter muito dinheiro ou ser rico mantendo desde cedo, o hábito de poupar – diferentemente do que se tem verificado, a ganância pelo dinheiro fácil, acham eles que se pode tornar rico de noite para o dia e, se suicidam depois que perdem muito dinheiro nos jogos de electrónicos de azar, malta “Aviator”, “Elefhant” … – Comentou Molide, o mais lúcido do grupo – ele, o Papapopó, pode ter pecado – continuou Molide – por não se mimar, viver em total escassez, é preciso guardar sim, também usar o dinheiro para o bem-estar, manter a saúde em dia, o equilíbrio, poupar – consumir, até porque, comer é a primeira actividade a ser executada no programa das exéquias fúnebres, antes do último adeus, porém – guardar dinheiro e, de ano a ano ver a conta engordar é a maneira mais segura de ficar rico e independente.